Análise - 2015: o ano de Putin

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Fabiano Mielniczuk*, O Estado de S. Paulo

21 Dezembro 2015 | 22h00

O ano de 2015 marca, definitivamente, o retorno da Rússia como ator capaz de definir a agenda internacional. Apesar do clima de Guerra Fria, o país conseguiu obter avanços significativos na consecução de seus interesses. Curiosamente, o restabelecimento da Rússia ocorre no momento em que sua economia passa pelo pior momento desde o início dos anos 2000. As previsões acerca do crescimento russo indicam queda de aproximadamente 4% no PIB. Mesmo assim, a aprovação do presidente Putin beira a unanimidade, alcançando picos de quase 90% da população. Por isso é possível afirmar: 2015 foi o ano de Putin.

Putin não conseguiu tal façanha sozinho. Contou com a ajuda de seus colegas ocidentais, de forma persistente em um esforço que se manteve por todo ano. Já em fevereiro, representantes da Alemanha, da França, da Rússia e da Ucrânia davam continuidade às negociações do 'quarteto da normandia', as quais resultaram nos acordos de Minsk II, estabelecendo as etapas para a normalização da situação no leste ucraniano. O acordo previa armistício, a retirada de armamento pesado da zona de conflito e atendia à principal demanda de Moscou, a saber, a descentralização política da Ucrânia para dar mais autonomia aos russos do leste. Essa última etapa, porém, dependeria de uma reforma constitucional, compromisso assumido pelas autoridades do país. Todavia, o conflito entre setores nacionalistas e o governo Poroshenko inviabilizou a reforma constitucional e permitiu que a Rússia acusasse a Ucrânia de não cumprir sua parte nos acordos. O impasse favoreceu a Rússia e arrastou a Ucrânia para o abismo econômico. Em 2015, o país enfrentou uma inflação mensal de 40% e seu PIB sofrerá uma retração de 12%. Em situação de falência, a dívida do país com o FMI foi perdoada. Para piorar, os gastos militares se mantiveram na casa dos 5% do PIB, de modo a sustentar o aumento de seus contingentes militares - em torno de 280 mil, quase o dobro do que existia antes da crise e um dos maiores da Europa. Só os Estados Unidos estimam que repassarão, em 2016, 300 milhões de dólares para as forças armadas ucranianas, alimentando ainda mais a crise com a Rússia. Putin agradece.

O ano de 2015 também marcou a primeira intervenção militar da Federação Russa fora do espaço da antiga União Soviética no pós-Guerra Fria. O combate ao Estado Islâmico na Síria permitiu à Rússia empregar diferentes peças de seu arsenal para proteger o governo de Assad, aliado da Rússia e do Irã. Os ataques demonstraram aos Estados Unidos e aos países da Europa que não se pode duvidar da capacidade militar russa, tampouco sua determinação em utilizá-la. Entre os russos, a atividade militar na Síria resgatou a auto estima de grande potência e reforçou o papel de protetor exercido por Putin, uma vez que a justificativa do governo para intervenção remete as atividades terroristas do Cáucaso russo nos anos 1990 à turbulência no Oriente Médio atual. Estima-se que existam em torno de 2500 russos combatendo a favor do Estado Islâmico na Síria. 

Qual o papel do Ocidente nisso tudo? A bagunçada transição de um regime sunita para um xiita no Iraque, feita de modo atabalhoado pelos Estados Unidos após a invasão do país em 2003, e a falta de capacidade de evitar a emergência do Estado Islâmico no norte, são o começo de tudo. Acrescente-se a isso uma pitada de wahabismo financiado pela Arábia Saudita para combater os xiitas e a opção ocidental de não negociar com Assad, novamente por influência saudita, e embarcar em uma guerra de proxies por meio do apoio a grupos armados 'rebeldes' - incluindo, entre eles, a Al-Nusra, facção da Al-Qaeda no Síria. A incompetência norte-americana no Iraque e o vácuo de poder na Síria criaram as condições para que o mundo assistisse, estarrecido, ao avanço das atrocidades do Estado Islâmico. Putin agradece a oportunidade de projetar a Rússia para o mundo, de novo.

A comoção que tomou conta do mundo após os atentados de Paris serviu para impulsionar negociações entre o Ocidente e a Rússia, e a crise da Síria deve se encaminhar, em 2016, para um concerto entre as grandes potências a respeito da necessidade de união na luta contra o EI. No dia 19 de dezembro de 2015, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou uma resolução de combate ao terrorismo, patrocinada por EUA e Rússia, que pretende restringir as fontes de receita do EI de modo a enfraquecê-lo. Se, de fato, houver acordo entre Rússia e o Ocidente sobre a Síria, provavelmente haverá reflexos para a resolução da crise na Ucrânia. O ano de Putin será completo se a Rússia conseguir avançar, nesses dois assuntos, seus interesses: estabelecer um governo de transição na Síria com participação de representantes de Assad e fazer com que os países ocidentais pressionem a Ucrânia para aprovar a reforma constitucional prevista nos acordos de Minsk. Em decorrência, os russos colheriam o fim das sanções econômicas impostas em razão da crise ucraniana e, aos olhos do mundo, teriam contribuído sobremaneira para a estabilização do Oriente Médio. Falta saber até que ponto esses dois fatores contribuiriam para a recuperação econômica da Rússia. Se esse for o caso, 2016 pode ser ainda melhor para Putin.

* Fabiano Mielniczuk é diretor da Audiplo e professor da ESPM-Sul

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