Análise - A democracia pelas Américas

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S. Paulo

02 Março 2016 | 21h00

A importância da Superterça nos Estados Unidos não está só na decisão sobre quem será o candidato dos partidos Democrata e Republicano para as eleições de novembro de 2016. Faz parte de um plano maior.

O caminho até aqui mostra que o sistema de governança das sociedades, por todo o continente americano, passa por profunda crise. Cada um a seu modo, Sanders e Trump desafiam(ram) o establishment e a forma como as pessoas têm se relacionado com a democracia.

Ambos são exemplos do novo tipo de demanda que a democracia liberal precisa atender. Atingimos um ponto em que o rito de eleições regulares e que respeitam a letra da lei não são mais suficientes para que o adjetivo 'democrático' funcione.

Harold Meyerson, por exemplo, provoca, no Guardian: por que, de repente, há tantos socialistas nos Estados Unidos? É sabido que as teorias de Marx e Engels são quase anedóticas na terra do Tio Sam. O 'sonho americano' representa a inclusão que marcou a formação social do país por séculos. Entretanto, a discussão sobre o papel dos 1% mais ricos que pagam muito menos impostos que os outros 99%, o contínuo declínio da qualidade de vida da classe média, mais o contrassenso entre garantir o direito ao porte livre de armas e tratar a possibilidade de um sistema de saúde pública gratuita garantido pelo Estado como heresia, mostram que o processo se inverteu.

Vivemos, novamente, a metáfora do espelho. Isto é, a sociedade norte-americana passou a excluir e segregar (latinos, muçulmanos, negros), enquanto inclusão ao longo dos últimos 25 anos foi massivo por toda a América abaixo do Rio Grande. E não falo somente de redução drástica da pobreza. Indígenas passaram a participar da política na Bolívia e no Equador. Os mais pobres foram finalmente trazidos ao ambiente político e ao mercado na Argentina, no Brasil e na Venezuela. O conflito colombiano chega a um ponto de transição no qual as forças paramilitares passam a ser incorporadas como atores sociais.

De fato, a discussão sobre reformas e ampliação dos processos democráticos não está confinada à América (do Alasca à Terra do Fogo), mas é um dos casos mais emblemáticos. O efeito colateral deste momento são as grandes polarizações, já há muito conhecidas dos brasileiros. A disputa renhida entre grupos rivais (nem sempre com ideologias distinguíveis) é uma consequência própria do regime democrático ou é um efeito colateral como a democracia foi conduzida até então?

A dualidade transborda uma estratégia eleitoral, de estabilização do sistema político ao redor de dois partidos dominantes, para se transformar em um elemento estrutural. Cada um dos lados demoniza o outro, ignorando a troca e usando o descrédito, o deboche e a agressão passiva como ferramentas políticas. O debate passa a ser entre incluir mais e como não permitir perdas com mais inclusão (um modo polido de defender a exclusão).

O regime político é reflexo do balanço das forças das classes sociais em uma sociedade. Ao longo do último quarto de século, esse equilíbrio foi alterado drasticamente por conta de pressões internas e externas. Mudou para melhor, leia-se. Quanto mais gente incluída, ou melhor, quanto mais 'pelo meio' estivermos, mais estabilidade teremos.

O que vemos com Trump, Cunha, Evo, Correa, Lula, Maduro, Macri e toda uma gama de políticos são estratégias falidas de comunicação e representação aprendidas durante o pós-Segunda Guerra, que não fazem mais sentido - apesar de ainda carrearem algum apelo.

No último período de virada crítica da história, o descontentamento com a democracia produziu a aberração totalitária. Hoje, Trump representa uma parte dos insatisfeitos. Mesmo que muitíssimo menos perigosas do que as de Hitler, Mussolini ou Hirohito, ainda assim, a estridência e popularidade do magnata mostram que o sistema, realmente, faliu.

Não há divisão entre civilização e barbárie. Estamos em meio a uma nova negociação sobre como governaremos nós mesmos. A bagunça, o sentimento de perdimento, são normais. A falta ideias originais que possam guiar o processo, não.

* Fabrício H. Chagas Bastos é professor de Relações Internacionais e Estudos Latino Americanos da School of Politics and International Relations da Australian National University e Research Fellow do Australian National Centre for Latin American Studies da mesma instituição. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au

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