Análise - A hora e a vez de Serra

José Serra ganhou de Michel Temer 'uma versão vitaminada do Itamaraty'. A 'vitamina' atende pela incorporação da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) ao MRE, e por dar ao chefe da diplomacia brasileira o direito de nomear o secretário executivo da CAMEX (Câmara de Comércio Exterior) - ambas antes vinculadas ao MDIC.

Fabrício H. Chagas Bastos*, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2016 | 20h49

O recado é claro: mais poder de fogo para o comércio internacional. Entretanto, como se dará essa redistribuição de competências ninguém sabe. Quem chefia? Quem compõe o órgão? Haverá adidos comerciais? O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, indicou que dará atenção especial à estrutura e aos recursos do Ministério. Nada mais justo que a Comissão comece a tomar a função para a qual foi criada - e se esquiva, faz anos.

Se essa versão 'empoderada' do MRE vai funcionar ou não é algo que depende não só do alto nível da burocracia da Casa de Rio Branco, mas também de como Serra vai combinar as ações de sua pasta com os russos da Esplanada - um diálogo que costumeiramente tem sido difícil ao Itamaraty. O mote 'vendendo mais lá fora, vamos aumentar a produção aqui dentro. E, com isso, gerar mais empregos para os brasileiros' precisa ser harmonizado com o núcleo duro da economia. Sem aumentar a produtividade não haverá o que vender e, por conseguinte, o que negociar. Manter a matriz de exportações concentrada em commodities é apenas maquiar como nova retórica um velho problema.

Para colocar o plano em prática, há apenas uma saída: orçamento - isto é, marcar Romero Jucá de perto. A tomar pelo minguado orçamento do Itamaraty e pelo volume de tarefas e expectativas futuras, não é possível nem dizer que Serra encontrará o corpo diplomático com o pires na mão. Até o pires foi tirado nos últimos tempos! Ainda, o estudo encomendado sobre o custo das embaixadas na África e no Caribe só faz sentido se for para identificar os postos que estão em estado de penúria e, de algum modo, revitalizá-los.

O discurso de posse martelou que 'a política externa vai ser feita de modo a atender aos interesses do País e não de ideologias e conveniências'. Perfeito. Então as embaixadas na África e no Caribe serão mantidas, como formas de continuar promovendo o diálogo Brasil-África e o modelo brasileiro de fazer negócios (diferente do praticado pelos EUA, China e pelos europeus), e também de permitir que os africanos tenham no Brasil um parceiro real, e não apenas de 'compaixão', para impulsionar os negócios naquele continente (estimulando o diálogo entre as nações africanas).

Cálculo político frio e realista: vale a pena manter as embaixadas porque isso permite que Brasil alavanque novas posições, em lugares como a ONU e nas principais negociações multilaterais, o que ajuda a expandir a influência e, com fim último, atender ao interesse nacional. Ademais, o próprio processo de eventual fechamento dessas embaixadas incorreria em custos políticos e econômicos que um governo sem dinheiro e que queira criar confiança não pode assumir. Isso não exclui engrossar negociações bilaterais, exatamente o contrário: as fortalece.

As mudanças reais indicam três direções. Primeiro, depois ter sido relegado a um segundo nível na Esplanada por Dilma, o Itamaraty volta a ter proximidade com o Planalto. Segundo, o dinheiro promete voltar. Terceiro, começa a se formatar uma estratégia clara para guiar e unir o que está sendo feito pelos diversos departamentos do MRE -reclamação constante ao longo dos últimos oito anos.

De saída, Serra fala alto, vocaliza o orgulho brasileiro. Em uma pernada só acertou Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua. No Paraguai, chamam o tucano de 'inimigo' do país. O Chile se diz preocupado com a situação no Brasil. O último a receber afagos foi El Salvador. Macri se finge de morto, mas vê tudo de perto, e deve ser o primeiro anfitrião de uma viagem internacional do novo ministro.

Diversos colegas esmiuçaram o discurso e as notas dos últimos dias. Uma teoria diversionista da política externa cai melhor para explicar as palavras de Serra: uma tempestade com os vizinhos (menores, coalhados de problemas) para criar uma distração ao que se passa no plano interno. Apelar à psique e ao orgulho nacionalista soa bem a um governo que se diz 'de salvação nacional'.

Serra mira 2018, emulando o que Fernando Henrique Cardoso fez sob Itamar. A ordem aos diplomatas é 'nem calar, nem escalar'. Afinal, ele mesmo não se calará, tentando escalar a Esplanada até o Planalto, usando como manual o livro do embaixador Sérgio Danese (Diplomacia presidencial: história e crítica), para produzir fatos que o levem cotidianamente à mídia, garantindo superexposição, sem o ônus das decisões impopulares da Fazenda ou do Planejamento.

* Fabrício H. Chagas Bastos é professor de Relações Internacionais e Estudos Latino Americanos da School of Politics and International Relations da Australian National University e research fellow do Australian National Centre for Latin American Studies da mesma instituição. Doutor pela Universidade de São Paulo. E-mail: fabricio.chagasbastos@anu.edu.au

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.