Análise - A Lava Jato e a instável conjuntura política

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2015 | 22h00

A frase tornou-se comum: no campo político é mais fácil prever o que vai acontecer no Brasil nos próximos cinco anos do que nos próximos cinco dias. As razões para isso advêm das intermináveis e imprevisíveis surpresas que podem surgir da Operação Lava Jato envolvendo políticos com mandatos, ministros e empresários de diferentes plumagens.

O País acordou com a Polícia Federal na casa do presidente da Câmara, na própria Câmara dos Deputados e nas residências de alguns políticos, ministros e assessores. Muita gente deve estar fazendo a seguinte pergunta neste momento: quem sai prejudicado com essa nova operação da Polícia Federal no momento em que existe um impasse (aguardando o posicionamento do STF) acerca do processo de impeachment da presidente, e que o Conselho de Ética da Câmara dos deputados autorizou o prosseguimento das investigações contra Eduardo Cunha?

Do ponto de vista dos perdedores, as implicações ainda não são muito claras, mas é possível apontar algumas consequências imediatas. A operação da PF jogou pressão sobre o Conselho de Ética e tornou impossível postergar mais ainda a apreciação da admissibilidade do processo contra Eduardo Cunha. O pugilato e as manobras verificadas nas ultimas sessões, somados à operação da PF, enfraqueceram a resistência empreendida pela tropa de choque cunhista e fortaleceram os argumentos contra ele. 

Quem também sai fragilizado é o vice-presidente Michel Temer. Com seu nome digerido pela oposição como saída consensual para viabilizar politicamente um eventual processo de impeachment contra Dilma, Temer viu parte importante do núcleo de seu partido atingido pela operação, o que deve fragilizá-lo na disputa pela opinião pública que aos poucos o recebia como saída segura para o impasse político que o País está vivendo. Se para alguns Temer estava se constituindo numa certeza para uma possível transição pós-Dilma, essa condição parece agora um tanto abalada. 

De forma mais ampla, o PMDB também tem perdas. O partido, que sempre foi colocado como solução para qualquer um dos lados envolvidos na crise com base no toma lá da cá, vê o nome da legenda aparecer em situações ainda mais desconfortáveis com a presença de lideranças que são peças-chave na vida partidária no centro das investigações da Lava Jato. Apesar de o envolvimento de quadros do PMDB na Lava Jato não se constituir em novidade, pode estar se acentuado ainda mais a imagem de uma organização partidária que sempre está pronta para servir a qualquer jogo político, uma vez que a operação da PF atingiu tanto o PMDB supostamente governista como o que agora se apresenta  na oposição. 

Por fim, não se pode ainda dimensionar o tamanho do prejuízo dessa última operação da PF para o governo Dilma. Atingido com o envolvimento dos ministros peemedebistas Henrique Eduardo Alves e Celso Pansera, num contexto em que é o PMDB que poderá conduzir o processo de impeachment, o governo petista está desnorteado e precisa, ainda, aguardar os desdobramentos dessa operação e as movimentações a serem empreendidas por Renan Calheiros, que até o momento tem sido poupado desse tipo de situação. Da mesma forma em que esse texto foi iniciado, encerro afirmando que continua sendo impossível prever com segurança o que vai acontecer nos próximos dias na política brasileira. Mesmo que a decisão do STF dê régua e compasso para o desenrolar do processo de impeachment, o que virá no decorrer dos trabalhos, fica absolutamente em aberto e sujeito a tudo que for revelado pela Lava Jato, que assim como seu objeto de trabalho (a corrupção) parece não ter fim.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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