Análise - A tragédia da farsa

Já foi dito que quando a história se repete, que isso se dá como tragédia. E que numa segunda vez, teríamos uma farsa. Pelo que temos visto em nosso país nos últimos dias, talvez estejamos presenciando uma tragédia 'fársica'. Não só vimos a culminação de um processo de impedimento de um líder político democraticamente eleito, com base em casuísmos jurídicos, utilizados com viés partidário, como também a ascensão ao poder central de um governo sem base popular alguma, composto por um ministério não representativo da sociedade brasileira, pronto para implementar uma agenda que não foi chancelada na urnas.

Rafael R. Ioris*, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2016 | 22h00

De fato, espelhando uma realidade vista ao longo dos últimos anos em países que, em geral, por boas ou equivocadas razões, não entram no radar da maioria de nossa população, como Honduras e Paraguai, vimos artimanhas jurídicas (ou contábeis) terem sido utilizadas para negar o direito, legitimamente conquistado nas urnas, de um mandatário democrático continuar a exercer sua obrigação constitucional como chefe de Estado. Passamos, assim, a uma nova realidade em que a deposição de presidentes eleitos são retirados do poder não via golpes militares, mas mobilizações midiáticas-populistas que, embora representativas de um desgaste do governante, não suprem, no regime presidencialista, o valor intransferível do processo eleitoral. 

Que a situação nacional não é boa, não precisa ser repetido aqui. Passamos, de fato, por uma forte crise econômica, que o governo Dilma não foi capaz de atender. Mais grave, porém, é nossa situação política: um país em crescente polarização ideológica, às vezes beirando a impossibilidade de nos reconhecermos no ambiente democrático como concidadãos de uma mesma nação. E é esse o contexto que não vai ser melhorado em nada, com o tal (des)governo Temer. 

Dando bem o mote do que deva ser seu mandato tampão, o vice-presidente no exercício da Presidência decidiu extinguir a maiorias das pastas que se relacionavam com questões sociais. Em especial, não mais existirão os Ministérios da Previdência, do Desenvolvimento Agrário, da Cultura, da Igualdade Racial e das Mulheres. Acrescentando ao simbolismo dessas medidas, Temer escolheu um ministério exclusivamente composto por homens, brancos, e, em geral, ricos, poderosos, tradicionais membros das salas palacianas, e que partilharam de vários conchavos políticos-chave ao longo de muitos dos mandatos presidenciais dos últimos anos. Por fim, agravando ainda mais as coisas, 7 dos 22 novos (muitas vezes, velhos ou ex-) ministros foram denunciados nas investigações da Operação Lava Jato, e agora passam a ter foro privilegiado para os desdobramentos investigativos futuros. 

Assim, ainda que alguns possam entender que o processo de impeachment tenha sido legítimo, o que a grande maioria dos observadores sérios, dentro e fora do País, duvida, é notório que o chamado governo Temer não encontrará legitimidade para implementar medidas necessárias para minimizar a situação de erosão socioeconômica e política em que vivemos. De fato, é de se esperar que os movimentos sociais organizados venham a se mobilizar de maneira crescente a fim de impedir que sejam os setores menos favorecidos que venham a arcar com o ônus maior de qualquer medida de impacto fiscal.

Assim, caberia perguntar, já e de maneira explícita: de que valeu toda mobilização pela saída de Dilma da Presidência? Estaríamos avançando no fortalecimento de nossa democracia e no combate à corrupção ou, pelo contrário, presenciando um grande acordo entre os principais membros do establishment político nacional a fim de aparentar uma suposta mudança que, na verdade, permitirá que tudo continue como sempre? Temo que a segunda seja a interpretação mais correta. E, assim, que estejamos não só vendo uma farsa, mas uma farsa trágica! 

* Rafael R. Ioris é professor de História Latinoamericana na Universidade de Denver

 

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