Análise - As primárias de Iowa: uma eleição sem vencedores?

De fevereiro a julho de 2016, os Estados Unidos estarão envolvidos em um dos processos mais custosos financeira e politicamente do seu sistema eleitoral: as primárias e as convenções nacionais dos partidos majoritários republicano e democrata. Ao longo de fevereiro, tendo como ponto de partida o Estado de Iowa, diversos colégios eleitorais pequenos realizarão suas votações, iniciando uma espécie de 'limpeza de campo' das disputas que se iniciaram há mais de um ano. Nesta 'limpeza', os candidatos nanicos que somente entraram na disputa para atingir uma visibilidade maior em suas bases abrirão mão das candidaturas e os favoritos se reduzirão a dois ou três nomes por partido.

Cristina Soreanu Pecequilo*, O Estado de S. Paulo

02 Fevereiro 2016 | 19h37

Já em Iowa algumas destas tendências ocorreram com a desistência de candidatos como Martin O´Malley pelo lado democrata e Mike Huckabee do republicano, e é possível contarmos com mais nomes, senão nesta semana, mas pelo menos a partir de New Hampshire, a próxima prévia. Entre os favoritos, Hillary Clinton e Bernie Sanders dominaram o campo democrata empatados (50%), fenômeno que se repetiu entre os republicanos com Ted Cruz (28%), Donald Trump (24%) e Mark Rubio (23%). 

Em termos de surpresa, duas merecem destaque: a quase inviabilização da candidatura de Jeb Bush, colocando em xeque anos de influência da família Bush e a ascensão de Bernie Sanders, definido pela mídia norte-americana como o candidato da esquerda socialista. Lembrando que esquerda socialista nos Estados Unidos traduz-se como agenda liberal, e que nesta candidatura está sendo também representada pela imagem de político anti-Washington e outsider. 

Avaliando Iowa, o que esta votação indicou foi o descolamento entre as primárias e o processo eleitoral nacional, levando à polarização de posições e à desconstrução da agenda partidária de longo prazo. Muitos analistas dizem que isso representa um vácuo de propostas, entretanto esta é uma avaliação que não procede. As propostas existem, dos dois lados, mas são recortes para grupos de interesse específico, sem foco em um projeto global, que traz, como consequência, o desencanto do eleitor que decide a votação (e não se identifica nem como democrata ou republicano) e que, dependendo do resultado das primárias, se verá sem opções. Dentre todos, talvez seja apenas Hillary Clinton que detém, até pela continuidade das políticas de Obama, um plano de governo inclusivo e equilibrado, que possui uma visão de Estado em termos sociais, políticos e estratégicos. 

À parte Hillary, dentre os seus adversários democratas e republicanos, as questões são mais sensíveis. Como citado, Sanders é até mesmo folclórico em suas posições, mas atrai por sua simpatia e retórica antipolítica. Retórica esta que se estende aos republicanos, imersa na ascensão da direita religiosa conservadora representada por Ted Cruz e nos arroubos de Trump, que contam com o apoio crescente do 'Partido do Chá', segmento radical da direita e que tem em Sarah Palin uma de suas principais vozes. Palin, que já foi vice-candidata à presidência na eleição de 2008, e governadora permanece como uma das políticas mais incisivas, senão agressiva dos Estados Unidos, envolvendo-se em polêmicas pró-armas, antiaborto, belicosas, homofóbicas e xenófobas (discurso com aderência às ideias de Trump, vide o apoio a sua candidatura). 

A exceção seria Mark Rubio que, aparentemente, representa um meio termo entre o radicalismo e a agenda tradicional do partido, mas cuja pauta é pouca conhecida. Na prática, esta posição intermediária de Rubio (quando comparada a de seus adversários) e sua pouca visibilidade surgem como uma válvula de escape. Não se conhece muito Rubio, como não se conhecia muito Obama em 2008. Uma indicação de Trump ou Cruz para concorrer à presidência seria uma clara prova da fragmentação irreconciliável do sistema norte-americano. Para Hillary Clinton, a hipótese de perder uma segunda indicação seguida após ser apontada como favorita nas duas oportunidades (2008 e 2016) representa o fim de sua carreira política, sem nunca atingir o auge. 

Iowa termina sem vencedores e acirra a disputa para a próxima semana em New Hampshire, que serão seguidas por um intervalo de quase um mês, preparando o terreno para as últimas votações de fevereiro, mas principalmente para o momento mais decisivo deste primeiro semestre: a 'Super Terça', em 1º de março.

* Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e autora de 'Os Estados Unidos e o Século XXI' e 'O Brasil e a América do Sul' 

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