Análise - Começando do zero

Um novo ciclo começa no País no dia de hoje. Dificilmente conseguirá ser pior do que se viu ao longo de todo o governo Dilma. Para começar, as equipes que estão sendo montadas, especialmente na economia, são de alto nível. Desta vez será possível dizer de verdade que há um triunvirato na gestão econômica, especialmente com dois grandes nomes na Fazenda e no Banco Central e um bom articulador político no Planejamento, que é o que se precisa nesse momento. Não haverá mais espaço para fingir que há um ministro da Fazenda independente enquanto todos sabem que era a presidente que realmente comandava a economia. Deu no que deu.

Sergio Vale*, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 20h41

Mais do que isso, teremos um presidente que terá um papel de articulador, negociador e conciliador, tudo que não se teve durante o governo Dilma. Aprovar as medidas fiscais duras que serão necessárias demandarão esforço no Congresso e criatividade para conseguir desmontar os esqueletos que foram gerados nesse período. Por exemplo: qual será a capitalização necessária para a Petrobrás e para a Eletrobrás? O que fazer com os mais de R$ 500 bilhões que foram repassados ao BNDES sem ter gerado nenhum retorno efetivo para a economia?

A sorte é que a recuperação da economia deverá ser relativamente importante especialmente em 2017, quando a volta do crescimento da arrecadação será elemento importante do ajuste fiscal. Neste caso, não se espera do novo presidente grandes mágicas nem soluções tiradas da cartola. Se conseguir sinalizar um superávit primário de 0% ano que vem em vez dos -2% deste ano já será muito positivo.   

Na política externa, a probabilidade de um salto é muito grande. Depois de anos e anos sem nada fazer, com nenhum acordo bilateral relevante assinado, a entrada de Serra no Itamaraty tende a turbirnar uma área que foi tão esquecida. A ideia de Dilma de focar só nos acordos gerais via Organização Mundial do Comércio (OMC) redundaram em fracasso em um mundo que se volta cada vez mais para acordos preferenciais de comércio.

Na política monetária, será outra volta à normalidade, com a busca efetiva da meta de inflação, preparando o terreno para um próximo presidente buscar uma meta mais realista de 3%, pelo menos. Depois de tantos anos de meta de inflação, não faz mais sentido ter meta de 4,5%.

Isso tudo não quer dizer que será fácil. O trabalho que resta será árduo, pois são várias frentes de trabalho. Não há uma questão apenas mais importante a ser resolvida como foi na época do Itamar Franco, em que a hiperinflação era o foco da discussão. Recuperar o fiscal e destravar a infraestrutura são os focos agora e se tornam difíceis, pois um, deles, o fiscal, pede ajustes no início dolorosos. O fim da hiperinflação trouxe aumento imediato de renda. O ajuste fiscal não traz isso no curto prazo, mas quanto mais rápido for feito, mais o ajuste conseguirá surtir efeitos positivos na economia mais à frente.

A sensação de urgência parece estar presente na visão do novo presidente e sua equipe. Como se sabe, Temer terá tempo muito curto para apresentar as medidas mais duras dada a condição de sua entrada. Pelo menos vale a pena tentar depois de tantos anos sem nada ser feito.

* Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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