Análise - Cordialidade pra quem?

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael R. Ioris*, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2016 | 20h09

Ficamos sabendo na semana passada que uma pediatra em Porto Alegre se recusou a atender uma criança pequena pelo fato de sua mãe ser suplente da Câmara de Vereadores pelo Partido dos Trabalhadores. Agravando o quadro de uma atitude já inaceitável, o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Sul, ao se pronunciar sobre o fato, afirmou que a médica em questão deveria se orgulhar da sua decisão. Ainda que mais tarde tenhamos tido pronunciamentos contrários ao posicionamento inicial da Associação Médica, permanece a reprovável postura inicial da médica em questão. Dentro do atual contexto de polarização política e ideológica exacerbada no País, como entender esse grave episódio? Seria esse um caso isolado ou representativo de algo maior?

Muito já se comentou e escreveu sobre a suposta cordialidade do brasileiro. E ainda que historiador Sérgio Buarque de Hollanda, o principal autor da tese de que como povo tenderíamos a agir mais sob os desígnios do coração, tenha depois explicado que essa caracterização não implicaria necessariamente em relações sociais mais harmônicas, temos em geral interpretado essa formulação como demonstrativa de nossa grande, ou mesmo maior, afabilidade social e capacidade de agir por meio de acordos e arranjos de modo a evitar grandes e abertos conflitos. Dentro ao acirramento continuado não só da retórica mas também mesmo da ação política por vários atores nos últimos meses, seria essa mesmo uma característica ainda constitutiva da nossa sociedade ou estaríamos perdendo nossa suposta cordialidade?

A radicalização em curso e excessos retóricos recentes não são exclusivos de nenhum grupo e têm sido apresentados por atores posicionados em diversos pontos do espectro político. Ainda assim, cabe ressaltar que temos tido muito mais expressões de raiva ou rancor por parte de integrantes de movimentos ou pessoas alinhadas sob ideários mais conservadores, ou pelo menos antiesquerdistas, como a médica descrita acima. De fato, temos visto nos últimos dias preocupantes ameaças feitas a integrantes do governo, como ao ministro de Comunicação da Presidência, ataques 'a locais de residências de ministros do Supremo Tribunal Federal ou mesmo a de jornalistas que tenham questionado cursos de ação de fortes personagens que estão, ao mesmo tempo, enfraquecendo a atual administração federal e polarizando ainda mais o cenário político.

Ainda que ainda sejamos uma das sociedades mais desiguais do mundo, é fato que temos acompanhado ao longo dos últimos 20 anos um processo histórico de incorporação de novas demandas à agenda e debates políticos. De maneira concreta, especialmente desde 2004, tivemos uma melhoria nos ganhos econômicos de parcelas historicamente menos favorecidas da população; uma conquista importante que foi efetiva fundamentalmente por meio da melhoria gradativa do salário mínimo e da ampliação da rede de proteção social. Mas pra além dos aspectos materiais, temos também visto uma crescente ressignificação de conceitos tradicionais de espaços sociais ao passo que tivemos a incorporação, ainda limitada mas transformadora, de setores sociais em geral excluídos e certamente minoritário em ambientes a eles até então restritos - sejam esses aeroportos, hotéis e, em especial, instituições de ensino superior. 

Se é que um dia fomos cordiais no sentido popularmente aceito do termo, o fato é que nossa cordialidade sempre dependeu, para funcionar, de um outro eixo, ou mesmo seu reservo, que poderia ser razoavelmente sintetizado na expressão do "sabe com quem está falando?". Ou seja, podíamos nos arvorar da noção ufanista de sermos unicamente cordiais desde que nosso mundo imediato funcionasse por meio de hierarquias sociais, senão totalmente rígidas, pelo menos muito bem definidas e 'aceitas' (por bem ou por mal!) por todos integrantes da coletividade. De fato, ainda que cordiais em condições normais, ou seja, onde todos sabem 'seu lugar', sempre se corria o risco de que essa mesma cordialidade se extinguisse rapidamente uma vez que as barreiras sociais que mantinham a ordem social fossem rompidas, especialmente por um membro de grupos sociais menos favorecidos de quem, por definição, não era admitida uma subversão da lógica em questão. 

Se nossa cordialidade sempre dependeu de que cada um saiba, ou melhor aceite, 'seu' lugar na escala social de uma das sociedades mais injustas do mundo, estaríamos então hoje presenciando o fim de um de nossos mitos fundacionais? Como reconstituir em um ambiente de maior mobilização social de múltiplos atores laços mínimos de respeito não mais hierárquicos que permitam o necessário diálogo para a manutenção e aprimoramento da nossa ordem democrática? Esse é hoje um de nosso maiores desafios.  

* Rafael R. Ioris é professor de História Latino-Americana na Universidade de Denver

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