Análise - É o fim da cordialidade tupiniquim?

Há um mito internacional (e mesmo reforçado por alguns de nós) de que o brasileiro é pacífico, cordial e quase apolítico. Um comportamento ora tido como positivo, ora nefasto, como nos alertou o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, ao afirmar que a familiaridade pode romper a linha que separa o público e o privado - limites éticos fundamentais, especialmente em se tratando de política e administração de bens públicos e impessoais.

Isabelle Anchieta*, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2016 | 22h00

Os representantes no poder tendem a privilegiar os familiares e os 'amigos' em vez daqueles que merecem efetivamente o cargo público - seja um ministro (a), diretor (a) de uma estatal, médico(a), professor(a) em um concurso público e etc. Tendência que ficou patente nos discursos dos deputados federais durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. As falas mais lembravam 'os recadinhos' de um show da Xuxa do que um processo sério de deposição de uma presidente. 

Em palavras mais técnicas: o clientelismo sempre esteve à frente do insulamento burocrático no Brasil. Uma balança nefasta que abre as portas da corrupção e interfere diretamente na qualidade dos serviços públicos, colocando em risco, em última análise, a vida e a qualidade de vida da população. Postos de saúde precários, estradas mal construídas, escolas de má qualidade, impostos altos, etc... que os brasileiros conhecem como ninguém.  

Mas por que (de uma hora para outra) o País do 'jeitinho', da 'malandragem' e da capacidade de adaptar-se a tudo revelou-se intolerante com a corrupção? Quer mais qualidade dos políticos? Por que as pedaladas fiscais dos presidentes antecessores foram toleradas e, agora, tornou-se escandalosa? Ou ainda, por que as doações de campanha de empresas e compra de votos são inaceitáveis? 

Seria a mídia a criadora dessa intolerância com a corrupção? Ou foi a Operação Lava Jato, o Ministério Público e o juiz Sérgio Moro os responsáveis por essa mudança de mentalidade? 

Ainda que muitos atores estejam em jogo, não se pode negar a formação de uma nova postura dos brasileiros que saíram às ruas naquele que foi o maior movimento social espontâneo e apartidário do País. Movimento que, inclusive, acelerou (e legitimou) o impeachment da presidenta ligada ao PT, partido envolvido em grandes esquemas de corrupção entre estatais e empresas nacionais. 

Os brasileiros encontraram táticas de resistência. Bateram panelas durante os pronunciamentos oficiais. Vestiram as cores da bandeira - para mostrar sua indiferença aos partidos políticos e o apego ao País. Mas também encontraram oposição de movimentos sociais organizados como o da CUT, do MST ou mesmo de simpatizantes de esquerda. 

Estereotiparam-se mutuamente. Brigaram nas redes sociais e, por fim, foram separados por um muro em Brasília. 

Há uma violência pronunciada. Diria quase inédita no debate político no Brasil. Abrimos a caixa de Pandora? Tiramos as máscaras? 

Mas qual é o limite desse embate? Em que momento ele é saudável para a democracia e em qual ele é improdutivo? 

Segundo o professor Leandro Karnal, "ele é pobre quando as pessoas adjetivam e estereotipam imediatamente, ouvindo muito pouco. (...) A discussão só pode iniciar se houver uma premissa comum. Por exemplo, quando entendemos que queremos, ambos, o melhor para o Brasil. Uma discussão é como um jogo de xadrez: implica concordar com regras prévias. Se tenho a opinião de que meu colega não tem nenhum ponto em comum e apenas quer perturbar ou brigar, é inútil a discussão."  

Não há troca, não há negociação, não há mediação, apenas acusações e o reforço e radicalização da própria postura.

Misturam-se a isso rancores e preconceitos de classe de ambos os lados em um caldeirão malcheiroso. Há um desrespeito mútuo: entre pobres e ricos, brancos e negros. Estereótipos espelhados que só reforçam as barreiras que tanto lutamos para derrubar.

Enfim, voltamos ao Brasil original, o da 'cordialidade canibal', por assim dizer. Onde os algozes e as vítimas estão nus e querem comer uns aos outros. Despidos, enfim, do verniz discursivo da democracia e dos direitos humanos. Ou, quando os entoam, parecem desencaixados, demasiadamente falsos para serem levados a sério. As intenções obscuras nunca estiveram tão as claras. Os dentes estão à mostra!

Somos todos potenciais vítimas desse moquém. 

Seria, então, o fim da cordialidade tupiniquim? Ou apenas a outra face do canibalismo nacional?

Algo mudou, e é preciso abrir os ouvidos e os olhos para essa esfinge que poderá nos devorar se não a decifrarmos. Pois a agressividade dessa descoberta pode ser transformadora ou destruidora.

* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP e professora da PUC. Recebeu prêmio internacional pela Associação ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Email: isabelleanchieta@gmail.com. 

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