Análise - Em nome de quem?

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Jean Marcel Carvalho França*, O Estado de S.Paulo

29 Março 2016 | 20h00

Uma vez eleito, o presidente tem o direito de tudo dizer em nome do país que representa? Tem ele o direito de convocar a imprensa internacional e anunciar que as 'elites' conspiratórias da republiqueta de bananas que administra tramam um golpe contra o seu suposto governo popular? Que não cometeu "nenhum crime previsto na Constituição e nas leis para justificar a interrupção do meu mandato" e que, "neste caso (...) o que está em curso é um golpe contra a democracia"? O voto popular dá ao presidente eleito o privilégio de dizer impunemente inverdades sobre o país e legitimidade para acusar a maioria esmagadora do seu povo de golpista, de ignorante e de antidemocrática, transmitindo ao mundo a ideia de que administra uma terra de trogloditas e celerados?

É verdade que a experiência da última década mostrou, empiricamente, que o voto popular deu o direito de o governo tocar o país, em matéria de política externa, como tocaria uma agremiação estudantil da década de 60, 70. Deu-lhe o direito, por exemplo, de alinhar o Brasil com todos os párias do mundo, sob pretexto de que 'somos contra o imperialismo americano'. Uma maneira pueril e démodé de exprimir a parvoíce nativista que habita nos corações e mentes de parte da inteligência local; manifestação típica daquela mentalidade que os teóricos contemporâneos das humanidades denominam 'terceiro mundista'.

Deu-lhe o direito também - como vimos acontecer - de, sob pretexto de defender os interesses palestinos ou aproximar-se do mundo árabe, pronunciar discursos e tomar posições no cenário internacional que beiram ao antissemitismo - o apoio, em 2009, ao antissemita Farouk Hosny para a direção geral da Unesco é um exemplo lapidar de tal 'política'. De apoiar descaradamente ditaduras de esquerda e de condenar, por razões incompreensíveis para um cidadão minimamente racional, democracias que julga alinhadas com o tal mundo rico; de abrigar canastrões em suas embaixadas; e de promover acordos internacionais que ninguém respeita ou avaliza, acordos cuja única função é entrar para o anedotário diplomático internacional.

O voto deu-lhe, ainda, ao menos em momentos de popularidade nas alturas, desvios não conhecidos e ufanismo galopante, o direito de o governo até mesmo nomear um chanceler subordinado a um 'conselheiro' - situação curiosa -, ambos provenientes e amantes de um universo intelectual esquecido desde os remotos tempos em que Régis Debray, Che Guevara e Daniel Cohn-Bendit gozavam a sua juventude. E eram tais almas as responsáveis por introduzir o Brasil no mundo globalizado e pragmático do século XXI - é como entregar a manutenção de computadores a especialistas em mimeógrafos.

Tudo isso hoje parece embaraçoso mas foi legitimado pelo voto, afinal, elegemos por quatro vezes um programa de governo que não escondia os caminhos, os tristes caminhos, que a política externa do País iria tomar. Em parte alguma, no entanto, estava escrito que a presidente teria carta branca para, em detrimento do País mas em seu nome, sair explicitamente em defesa de uma agremiação política e acusar o povo que representa de golpista e antidemocrático. É duvidoso também que o cargo que lhe foi conferido autorize o ocupante a atacar, numa mesma tarde, a população, a mídia, o Legislativo e o Judiciário do País, referindo-se a eles como se de bandidos e conspiradores se tratassem.

Em matéria de esculhambação internacional do Brasil, a presidente de fato atravessou a linha do Rubicão, e escolheu para fazê-lo justamente as vésperas dos famigerados Jogos Olímpicos. É a cereja do bolo que faltava. Há quem diga que tudo não passa de uma fria vingança contra o prefeito do Rio de Janeiro, aquele que tão jocosamente se dirigiu a ela, ao governador do Estado e à cidade de Maricá numa conhecida ligação telefônica.

* Jean Marcel Carvalho França é professor titular de História do Brasil da Unesp de Franca

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