Análise - Futuro político ainda incerto

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2016 | 19h31

A segunda batalha da guerra pelo impeachment chegou ao fim. Dilma Rousseff perdeu o embate no plenário da Câmara do Deputados e agora o seu processo de afastamento segue para o terceiro round: o Senado, que dará a palavra final. Entretanto, o jogo parece chegar ao Senado já decidido. Se não houver nenhum fato grave contra Michel Temer, que surja de uma Lava Jato que nos últimos dias saiu à francesa da cena política, os senadores não vão reverter a decisão dos deputados. Em ano eleitoral, mesmo diante da controvérsia jurídica acerca da validade das pedaladas fiscais como motivo para afastar Dilma, o custo político de mudar uma decisão, que a priori tem aprovação da maioria da sociedade, será muito alto. Se o desfecho for esse, o único espectro a rondar o futuro de Temer à frente do governo será o processo que corre no TSE e que poderá ser turbinado por uma provável campanha nacional a ser lançada pelo PT defendendo a realização de eleições presidenciais. Isso, fatalmente, o PMDB vai tratar como tentativa de golpe por parte dos petistas. Frente aos prováveis desdobramentos do ainda provável governo Temer, o que o futuro político mais imediato projeta?

Primeiro, o súbito protagonismo de Eduardo Cunha e Michel Temer no processo de impeachment enfraqueceu o PSDB. Os tucanos ficaram em posição secundária e deixaram de ser vistos, ao menos momentaneamente, como alternativa de poder ao PT. 

O que resta ao PSDB neste momento? 

Dois caminhos: 1) Se converter de oposição sistemática ao governo do PT para oposição bula de remédio (ativa, mas propositiva) ao PMDB, como alguns petistas fizeram durante o governo Itamar Franco para não serem acusados de conspirar contra a recuperação do País; 2) Ingressar no governo peemedebista sob o risco de o partido ficar enfraquecido para 2018 caso Michel Temer consiga retomar alguma perspectiva de recuperação econômica do País a curto prazo. Nesse cenário, permanecendo a possibilidade de reeleição em 2018, o PMDB não cederia apoio presidencial ao PSDB sob o risco de perder a oportunidade de tentar eleger, pela primeira vez, um presidente da República filiado ao partido pelo voto direto. 

Segundo, o lugar de oposição sistemática deverá ser ocupado mais por Lula e pelo PT. Aliás, o futuro imediato dos petistas depende fundamentalmente de como Lula vai se comportar daqui em diante. Ao menos agora, o PT volta à condição pré-2002 - completamente dependente da figura de seu líder, mas com um enorme desafio: superar uma grande rejeição social que até 2002 tinha caráter meramente ideológico, mas que agora ganha uma mistura entre as dimensões ética e ideológica (lembrando que a dimensão ética era antes um dos principais patrimônios do partido no diálogo com a sociedade). Se não vencer o obstáculo do tamanho da rejeição enfrentada pelo partido hoje, o PT pode até se manter competitivo com Lula, mas não conseguirá construir condições necessárias para viabilizar uma maioria eleitoral que possibilite vitória.

O pós-Dilma mudou, ao menos momentaneamente, a perspectiva que parecia irreversível de continuidade de uma disputa política que se arrastava desde 1994: a polarização entre o PT e o PSDB em 2018. O mais provável é que tenhamos uma disputa mais acirrada entre o PT e o PMDB, com o PSDB perdendo centralidade. O PMDB, antes muito criticado por sua voracidade por cargos no governos dos outros, agora deverá ter um governo para chamar de seu. Entretanto, a sociedade emite sinais evidentes de que a paciência com o toma lá da cá parece ter acabado. Se quiser ter êxito, o PMDB vai ter que se reinventar em um outro PMDB mais republicano. Mas, a julgar pelas movimentações de Temer e seus interlocutores para a formação do governo, parece que estaremos ainda longe disso.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

 

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