Análise - Lula, PT e o futuro do Brasil

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael Alcadipani*, O Estado de S. Paulo

04 Março 2016 | 20h00

Ontem e hoje foram dias que entrarão para a história do Brasil. Um ex-líder do governo no Senado, ao que tudo indica, prestou depoimento acusando a presidente da República e um ex-presidente de tentar interferir nos rumos de investigação criminal contra o alto escalão do governo e de partidos aliados. Na manhã de hoje, o Brasil acorda com a 'condução coercitiva' do ex-presidente Lula para prestar esclarecimentos à Polícia Federal em ato solicitado pelo Ministério Público Federal e ordenado pela Justiça. Pode-se, de fato, questionar se o instrumento da 'condução coercitiva' era adequado ou não para se conseguir o depoimento de Lula. Porém, o estrago já está feito. 

O que permeia as investigações do Ministério Público, da Justiça e da Polícia Federal são relações nada republicanas entre os membros do partido do poder, empresas públicas e empresas privadas. A troco do que estariam empreiteiras 'bancando' despesas do ex-presidente Lula? Não resta dúvidas que esta questão central precisa ser esclarecida.  Semanas atrás, a imprensa noticiou que suposto filho do ex-presidente Fernando Henrique recebia pagamentos de uma empresa, indicando que FHC possivelmente também desenvolveu relações nebulosas com corporações. Na verdade, é sabido que relações nebulosas entre políticos e empresários acontece do Norte ao Sul do Brasil.

Se sairmos do Brasil, vemos hoje que nas prévias das eleições dos Estados Unidos, um dos pontos que faz Donald Trump conseguir tantos votos no Partido Republicano é o fato de financiar a própria campanha e dizer, a verso e prosa, que não estará com o rabo preso com ninguém caso vire presidente. Nos Democratas, Bernie Sanders recebeu milhões em contribuições individuais para a sua campanha e recusou-se a receber doações de grandes empresários. Aliás, todo o seu discurso é contra o poder das grandes corporações no mundo de hoje. 

Discursos raivosos contra Lula e o PT, como se o partido tivesse inventado a corrupção, e discursos esquizofrênicos acusando não se sabe bem quem de planejar um 'golpe' abundam. Tais discursos mostram a irracionalidade profunda que está tomando conta do debate nacional em um momento de profunda crise. O PT pecou ferozmente por assumir o poder e ao invés de lutar contra a ordem das coisas, chafurdou e ganhou grandes benefícios com ela. Jogou com o sonho de milhões e entrega hoje uma recessão que está destruindo com os avanços que consegui criar em seu governo. A oposição que vocifera pela ética na política faz um discurso cínico, pois ela própria se beneficia de esquemas semelhantes. 

Todo este barulho deste Fla X Flu político nacional nos tira o foco da pergunta que deveríamos procurar responder: como podemos fazer para que governantes não se entreguem aos interesses de corporações privadas que usam a corrupção como vantagem competitiva? Quais as mudanças que devemos fazer no Brasil para que o nosso sistema político seja menos vulnerável ao assalto de políticos amalgamados com empresas contra as pessoas? Se por um lado é alentador saber que hoje quem corrompe e quem é corrompido tem mais medo do que fazem, por outro reformas estruturais são urgentes para que a democracia prevaleça e não seja tomada pelos interesses privados, quer seja de políticos, quer seja de empresários. Infelizmente, o Brasil ainda engatinha neste sentido. 

O primeiro passo, talvez, seja começar a discutir política com o cérebro e não com o fígado.

* Rafael Alcadipani é professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA

 

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