Análise - No governo ou na oposição? O dilema do PMDB

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2016 | 21h00

O PMDB bem que tentou, ao adotar a estratégia de tomar a decisão por aclamação em menos de três minutos, demonstrar que existia unidade do partido em torno do desembarque do governo Dilma Rousseff. Todavia, não foi necessário mais do que um dia para voltar a ser o que sempre foi o velho PMDB: um partido dividido entre ser oposição e ser situação, algo que vem acontecendo desde o governo FHC, passando por Lula e que foi se intensificando na gestão Dilma. Entretanto, como o momento é bem diferente dos anteriores, e o que está em jogo é a aposta na possibilidade de Michel Temer assumir o Palácio do Planalto, o partido se vê diante de dois cenários que podem levá-lo a futuros bem distintos. 

O primeiro é o que pode levar o PMDB à condição de protagonista nas eleições presidenciais de 2018, algo inédito na história do partido desde o retorno do voto direto para presidente da República em 1989. Isso se daria num contexto em que Michel Temer assumisse a Presidência da República, tivesse um baixo grau de contestação social e, de maneira rápida, estabilizasse a economia e retomasse o crescimento de emprego e renda sem comprometer a manutenção de programas sociais. Entretanto, a viabilização de tal cenário depende de um acordo político que poderá ser costurado com o PSDB com vistas à sustentação de um eventual governo peemedebista pós-Dilma. Não interessa aos tucanos presidenciáveis, Aécio, Serra e Alckmin, um PMDB fortalecido para as próximas eleições presidenciais. Por isso, dificilmente o PSDB apoiaria Temer sem que houvesse um compromisso de que o PMDB estaria fora da cabeça de chapa na disputa em 2018.

O segundo cenário seria decorrente da sobrevivência do governo Dilma ao processo de impeachment. Neste, a maioria do PMDB que abandonou o governo e passou a trabalhar abertamente pelo afastamento da presidente Dilma se manteria sem as benesses dos cargos governamentais dos quais se alimentavam politicamente. Isso poderia enfraquecer o grupo no objetivo de manter o controle da máquina partidária e a lealdade eleitoral de prefeitos que dependem de repasses governamentais e de emendas orçamentárias para administrar os municípios em que estão as bases eleitorais da maioria dos deputados peemedebistas. 

Talvez, olhando para esse cenário e ponderando que o silêncio, em vez de um afastamento ruidoso, fosse a melhor estratégia, é que o senador Renan Calheiros classificou a decisão do PMDB de desembarcar do governo, três dias após ter se tornado pública, de precipitada. Convém lembrar que o partido, além de dividido em fortes interesses regionais, não possui uma liderança nacional com credibilidade pública que possa levá-lo ao Planalto sem que, como agora pretendem, façam um estágio probatório para que se credenciem ao desafio de ganhar a confiança do voto da maioria dos brasileiros.

O quadro político atual demonstra que a interrupção do mandato de Dilma pelo processo de impeachment já não parece tão segura quanto se desenhava no momento em que o PMDB anunciou o seu rompimento. Porém, não há promessa de estabilidade num contexto em que a Lava Jato parece seguir seu fluxo e leva agora o PT de volta ao tempo do mensalão e do caso Celso Daniel. O que poderá surgir dessa nova frente de investigação pode ajudar a decidir tanto o futuro de Dilma quanto o de Michel Temer.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

 

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