Análise - O futuro do Brasil é incerto, mas há futuro

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Bruno Santos, Felipe Michel Braga e Felipe Oriá*, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2016 | 22h00

O futuro do Brasil é incerto, mas há futuro. Ele se estabelecerá de acordo com os desdobramentos das crises ética, política e econômica que vivemos atualmente. Refletir sobre essas crises, portanto, é necessário, mas não suficiente. O mais importante é fazermos no presente aquilo que nos levará a superar as crises do passado e, dentre os futuros possíveis, construir aquele que queremos.

Nos dias 22 e 23 de abril, uma profunda reflexão sobre a situação brasileira tomou lugar nos corações de duas das maiores universidades do mundo. Em Harvard e MIT, realizou-se a segunda edição da Brazil Conference, organizada por estudantes brasileiros dessas renomadas instituições. A conferência teve duas metas principais. De um lado, criar um ambiente acadêmico e politicamente neutro, no qual discussões sobre assuntos controversos poderiam acontecer apesar da crescente polarização no Brasil. De outro lado, apresentar-se como uma plataforma na qual pessoas de diferentes regiões geográficas e campos do saber poderiam contrapor e empoderar ações transformadoras. Nos seus quatro pilares, pessoas, mundo, fundações e imaginação, os dois objetivos foram alcançados. 

O desafio, após o encontro, é materializar ações no presente que nos levarão ao futuro com o qual sonhamos com tanta ousadia. Pessoas de diferentes origens e de inegável sucesso em suas áreas discorreram sobre suas opiniões acerca do futuro do Brasil. Nós, e muitos outros estudantes, ouvimos, questionamos, desafiamos os palestrantes a ir além do diagnóstico da crise. Após as apresentações de personalidades como Abilio Diniz, Alessandro Molon, Ciro Gomes, Carlos Ayres Britto, Joaquim Falcão, Joice Toyota, Jorge Paulo Lemann, Laura Carvalho, Leila Velez, Neca Setubal e Rodrigo Janot, para citar alguns, ficou uma angustiante pergunta. O que fazer?

A polarização de opiniões, de interpretações e de juízos de valor estava presente nas respostas. Um elemento, contudo, atraiu nossas atenções. Apesar da multiplicidade de argumentos e posicionamentos, havia sede de consenso. Uma terceira narrativa parecia emergir entre aquela do golpe das elites e da derrubada do populismo da esquerda. Todos diziam, de formas diferentes, que as crises vêm e vão, e que nelas também habitam oportunidades de transformação. Elas marcam novos inícios. Sonhamos que pudesse ser o prelúdio da relegitimação da política. Uma política pragmática e focada no longo prazo. Em busca de coesão social e não dos interesses de pequenos grupos. Como fazer?

Procuramos o consenso. E encontramos, ainda que disperso e fragmentado. Consenso em um país cansado da disputa de narrativas maniqueístas. Não há um caminho único para o desenvolvimento com redução de desigualdades. O 'Fora Dilma' e o 'Fica Dilma' não representam a retomada da ética no País. Além da crise política, ética e econômica, essa é também uma crise de narrativas. Mas essas crises trazem a oportunidade de questionarmos nossas aspirações. De nos reinventarmos como pessoas e como país. Para isso precisamos continuar investigando nossas omissões, erros e acertos. Será preciso tirar esqueletos do armário. Discutir o caráter de raça do fosso social e o idealismo de uma constituição que promete, porém não cumpre. Clamamos pragmatismo! Enquanto pessoas e enquanto país, precisamos definir quem somos, o que fazemos e quem queremos ser, assumindo os custos dessa definição. Não podemos deixar que o impeachment, pré-consumado, estimule o arrefecimento da mobilização ao redor dos maiores dilemas brasileiros. Precisamos manter a pressão para transformar a mobilização em ações concretas, suprapartidárias, republicanas. Quando fazer?

Precisamos continuar investigando e, mais do que nunca, precisamos iniciar as reformas tão necessárias. Agora! A Lava Jato mostrou, por exemplo, que o financiamento de campanha via doações de empresas, além de permitir grande influência do poder econômico no resultado eleitoral, resulta no direcionamento de contratos para os doadores. Medidas para regular o financiamento de candidatos, limitar o custo de campanhas e coibir o caixa dois são as primeiras reformas realizadas.

Temos que continuar agindo. Sem seletividade! Se punirmos aqueles que corromperam aos outros ou a si mesmos - mas, principalmente, reformarmos o sistema que facilitou o corrompimento - podemos dar mais um importante passo para a reconstrução de uma política baseada em princípios e ideias. Precisamos parar de culpar os outros, os políticos e o Estado, por nossas omissões e erros como sociedade. Criar mais incentivos para o trabalho profissional e ético no setor público. Estamos dispostos a fazer nosso dever de casa? Nada vai mudar, a não ser que nós mesmos mudemos. Mudemos nós mesmos. Mudemos o País.

* Bruno Santos é mestrando em administração pública em Harvard e faz MBA no MIT, Felipe Michel Braga fez o mestrado em Educação em Stanford, e Felipe Oriá faz o mestrado em políticas públicas em Harvard

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