Análise - O impeachment de Temer

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Wagner de Melo Romão*, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2015 | 22h00

Muito além de ser uma carta-desabafo - como Temer quis fazer crer e como avaliaram setores da imprensa - a missiva entregue a Dilma Rousseff é uma peça definitiva de seu descompromisso com o atual governo e marca a abertura da fase politicamente mais relevante do processo de impeachment. Nela, os agentes políticos passam a organizar sua conduta com vistas àquilo que podem ganhar no momento imediatamente posterior à finalização do processo, com ou sem impeachment.

Não é por acaso que tenha vindo a público no mesmo dia em que Eliseu Padilha abandonou o governo e em que Eduardo Cunha e a oposição novamente deram sinais claros de que não estão brincando, com a formação da chapa avulsa àquela indicada pelos líderes dos partidos para a formação da comissão que analisará o pedido de impeachment. Agora há pouco se divulgou que a composição da chapa reúne, além da oposição, integrantes de partidos tidos como aliados, como PMDB, PSD, PP e PRB, configurando um racha na base que vai muito além do partido de Temer. Vai se agudizando o processo e os deputados vão se posicionando, em um conflito político que será muito mais duro do que foi no processo que tirou Fernando Collor da Presidência, em 1992.

Temer apostou alto. Mas errou a mão. A carta poderia ter tido efeito positivo para Temer se fossem omitidos os trechos em que ele se desnuda como um capo traído. Refiro-me à menção enciumada à sua ausência nas conversas com o vice-presidente dos Estados Unidos e também às lembranças sobre como seus diletos apaniguados Moreira Franco, Eliseu Padilha e Edinho Araújo teriam sido despachados do governo sem que ele sequer fosse consultado. Temer se apequena ainda mais ao mencionar a relação direta de Dilma com o líder do PMDB na Câmara Leonardo Picciani, sem sua anuência. 

É nesse ponto que cabe inverter o teor do desabafo de Temer: não se trata aí de um vice-presidente desprestigiado e que não é consultado na tomada de decisões, mas do presidente de um partido absolutamente sem rumo, cujas facções não se entendem sobre a melhor estratégia para permanecer no poder. De que serve ao governo um presidente de partido que não tem incidência sobre os pemedebistas Picciani e Cunha? Que não controla o PMDB, seja no atacado seja no varejo?

Fosse o PMDB um partido coeso, seria de fato um erro crasso de Dilma formar seu 'núcleo duro' sem o presidente do PMDB e seu vice Michel Temer. Talvez tenha sido este um dos principais erros políticos de Dilma no primeiro mandato - até junho de 2013 - quando a situação política e a econômica eram melhores e quando o PMDB estava mais pacificado. Mas tenho dúvidas sobre a possibilidade real de que se resolvesse por acordo político o racha no partido protagonizado por Cunha, especialmente com o agravamento do cenário econômico e com a instabilidade provocada pela Operação Lava Jato. Esta deve ter sido a impressão também no governo, no desastre da derrota do PT na disputa pela presidência da Câmara.

De que vale ao governo a figura de um Temer publicamente prestigiado, fortalecido e fiel - um virtual estadista - deflagrado o processo de impeachment? De nada vale. Com a carta, Temer parece ter tentado saltar sobre o cavalo encilhado, aproximando-se das hostes oposicionistas e buscando agrupar os agentes políticos que avaliam ganhar mais com o impeachment. Seu teor, no entanto, revela um político inábil, estabanado, que parece ter afugentado o cavalo que não passará duas vezes. Foi um erro. Temer, mesmo que seu lugar institucional se mantenha, vê diminuir suas possibilidades de liderar forças políticas numa alternativa a Dilma.

* Wagner de Melo Romão é professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp

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