Análise - O 'Manifesto Antropofágico' de Romero Jucá

*Texto atualizado para correção de informação às 23h06

Isabelle Anchieta*, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2016 | 20h32

"Todo mundo na bandeja para ser comido". A frase do já ex-ministro Romero Jucá mais parece o esboço de um novo Manifesto Antropofágico. Um texto célebre escrito pelo poeta brasileiro Oswald de Andrade, em 1928, dando voz a uma significativa mudança paradigmática não só da Arte, mas na forma como a sociedade brasileira passa a compreender o nacional e o estrangeiro. O canibalismo ritual, ou a antropofagia, é utilizada pelo poeta como uma metáfora para sugerir uma apropriação particularizada do 'outro' no que é nosso. "Tupi, or not tupi that is the question".  

O 'manifesto inconfessável' de Jucá, por sua vez, é bem mais pedestre. Mas nem por isso deixa de anunciar mudanças por vir. Sintetiza o sentimento dos políticos diante do efeito dominó promovido pela Operação Lava Jato. A ideia de que 'não irá sobrar pedra sobre pedra'. Nem as que construíram o maior partido tido como esquerda, o PT, nem o partido mais à direita, o PSDB. Já que segundo as profecias antropofágicas de Jucá "o primeiro a ser comido vai ser Aécio". O 'estepe' a esse revezamento partidário oferecido pelo PMDB parece também não resistir aos percalços do novo caminho exigido pelo Ministério Público. Visto que o próprio Jucá foi engolido antes que Aécio. 

O 'país da cobra grande', ou do 'rei-analfabeto', segundo a profecia de Oswald de Andrade, quer agora a "Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa". E eis que a combinação entre as condenações da 'Lava Jato' e a Lei 'Ficha Limpa' arquitetam uma 'reforma política', por assim dizer. Uma mudança que seria silenciosa, não fosse o apoio maciço da população a essa limpeza geral. O 13 de março de 2016 - o maior movimento social espontâneo do País - bradou o apoio à Lava Jato. Indicando uma vontade pronunciada de reinvenção nacional. De um país que quer ser Ficha Limpa. 

Mas Michel Temer não entendeu isso (e outras coisas). Errou com a Cultura, errou com as mulheres. Teve que recuar. Pois, ao que tudo indica, quem não escutar os desejos desse gigante que ora adormece, ora acorda, corre o risco de ser devorado. Pois, como bem lembra o poeta, "nunca fomos catequizados".   

No fundo, a frase irônica de Jucá de que a sociedade deseja "acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura" não soa tão mal assim para brasileiros acostumados à antropofagia para se reinventar. 

*Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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