Análise - O papa no México

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Wagner Iglecias*, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2016 | 20h08

O papa Francisco iniciou nesta semana uma viagem ao México, um dos países com a maior quantidade de católicos em todo o mundo. Três fatos, entre vários, marcaram o início da passagem do chefe da Igreja Católica pelo país asteca: o pontífice abriu a missa dessa segunda-feira em San Cristóbal de Las Casas, no Estado de Chiapas, um dos mais pobres do país, em tzotzil, idioma indígena local. Pronunciou na língua indígena a citação bíblica "a lei do Senhor é perfeita em tudo e conforta a alma". Francisco citou ainda uma passagem do Popol Vuh, livro sagrado do povo maia: "um desejo de viver em liberdade e tem sabor de terra prometida, onde a opressão, os maus-tratos e a degradação não sejam moeda corrente". E sobretudo pediu, em nome da Igreja Católica, perdão aos povos indígenas. 

Trata-se de um aceno que chega à América com cinco séculos de atraso. As inúmeras nações indígenas que viviam no chamado Novo Mundo foram vítimas sistemáticas não apenas da subjugação cultural e da espoliação de terras, mas daquele que talvez tenha sido o maior genocídio da história da humanidade. Dezenas ou talvez centenas de milhões de indígenas foram mortos desde fins do século XV pela invasão europeia, do Alasca à Patagônia. O projeto colonial europeu, e em especial o espanhol, que ocupou do México à Argentina, era encarado por Madri não somente como uma empreitada econômica, mas também como uma missão civilizatória. Já em 1550, o Bispo de Chiapas, o espanhol Bartolomeu de Las Casas, travou duro embate ideológico com seu compatriota, o sacerdote Gines de Sepúlveda. Para este último, os indígenas eram como bestas primitivas, comparáveis a qualquer tipo de animal e, portanto, passíveis de toda sorte de escravidão ou coisa pior. Para Las Casas os índios eram, como os europeus, criados à imagem e semelhança de Deus, inocentes por não conhecerem o Deus cristão e, portanto, passíveis de serem mantidos vivos e livres e serem convertidos à fé católica pelos conquistadores. 

O embate entre Sepúlveda e Las Casas exemplifica bem as duas opções que o invasor europeu colocava diante de si desde aquela época: escravizar e/ou dizimar as populações indígenas ou então convertê-las ao cristianismo. De um modo ou de outro, a colonização das Américas pela Europa foi um processo de subjugação, física ou simbólica, de uma cultura por outra. E tudo em nome da necessidade de acumulação material das potências europeias e da crença cega em sua superioridade moral e religiosa, que de resto se viu também ao longo dos últimos séculos nos processos de colonização da África, da Ásia e da Oceania por povos europeus diversos. 

Não deixa de ser curioso que o chefe da Igreja Católica reconheça que o capitalismo nos aprisionou a todos na cultura do consumo e do descarte, como disse em sua missa em Chiapas, e apele aos indígenas do México, e de toda a América Latina, que ensinem ao mundo o respeito à natureza e o valor da gratuidade, traços marcantes das mais variadas culturas pré-colombianas. Obviamente, nas entrelinhas trava-se uma guerra pela reconquista de milhões de indígenas e descendentes que em toda a região vão cada vez mais se distanciando do catolicismo e abraçando o cristianismo evangélico. 

Ainda que já tenha visitado outros países latino-americanos, como Brasil, Bolívia, Paraguai, Cuba e Equador, é no México onde Franciso faz de forma mais enfática este tipo de discurso. México, que há vinte anos aderiu ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), e desde então caminhou a passos largos para limitar-se ao papel de plataforma de produção de bens para o mercado dos EUA. México que, ao contrário do que se dizia quando do abraço eterno no grande irmão do Norte, tornou-se desde então um dos países com as maiores taxas de crescimento da pobreza em toda a América Latina. Ainda que a mensagem do Papa chegue à região após cinco séculos de espoliação das populações indígenas, talvez o Vaticano não poderia ter escolhido país mais simbólico para expressá-la. 

* Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

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