Análise - O pior da crise

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

João Ricardo Costa Filho*, O Estado de S.Paulo

23 Março 2016 | 20h15

A economia é uma ciência que se dedica a diversos episódios que envolvem escolhas feitas por pessoas. Dentre as inúmeras áreas de interesse, há o estudo das crises financeiras que, para alguns pesquisadores que se dedicam a elas (como eu), é de um fascínio ímpar. Situações de crescimento são revertidas em poucos trimestres, a tranquilidade dá lugar à incerteza e, com ela, o pessimismo ganha corpo. Dependendo da origem da crise, alguns setores respondem mais rapidamente que os outros. Mas a contração chega para todo mundo. É rápida e severa.

As decisões de produção são diminuídas, investimentos postergados, o consumo minimizado no que é possível. Os agentes esperam pelo pior e as expectativas levam à autorrealização de profecias catastróficas. Cabe ao governo em momentos de pânico suavizar a queda, estimulando a economia com cortes na taxa de juros e, em situações muito graves como a Grande Depressão, o Japão da década de 90 ou a crise de 2008, aumentar os seus gastos. Nenhuma dessas ferramentas parece disponível para o Brasil hoje.

A materialização da crise na sua pior forma é o desemprego. As vidas das famílias são assoladas por uma realidade cuja reversão é sempre mais lenta do que gostaríamos. A rigidez no mercado de trabalho brasileiro faz com que o desemprego demore um pouco mais para chegar. Mas quanto este se apresenta como opção de ajuste recessivo, a sua intensidade preocupa. 

A inflação hoje é alta e a expectativa é de que se mantenha incomodamente acima do que a sociedade tolera. Não há, portanto, espaço para cortes na taxa de juros básica da economia. A situação fiscal está no cerne dos problemas econômicos e proíbe qualquer gestor responsável de expandir os gastos para conter a recessão. O desemprego cresce a passos largos. Saiu de 7,6% em janeiro para 8,2% em fevereiro, diz o IBGE.

Sem poder estabilizar essa dinâmica, o governo assiste o poder de compra do trabalhador diminuir. E com ele, a demanda agregada, novos investimentos e milhares de empregos. Cada corte alimenta uma nova queda. Desde o segundo trimestre de 2014 a economia se encontra em trajetória descendente. É ladeira abaixo, e o freio parece não funcionar.

A crise política não inflama apenas os ânimos, mas também a recessão. Não se consegue controlar a trajetória da dívida pública - que é explosiva - porque se necessita do Congresso para isso. O mesmo que deverá tirar a presidente do seu cargo, mas não sabe quem irá ocupar a cadeira, já que a linha sucessória confunde-se com a lista de envolvidos na Lava Jato. Ninguém sabe o que irá acontecer no Brasil em 2016, quiçá nos próximos anos. E esse tipo de incerteza só machuca a economia. E não há corte pior do que o do desemprego, que não vai parar de aumentar.

* João Ricardo Costa Filho é professor da Faculdade de Economia da FAAP e associado da Pezco Microanalysis

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