Análise - O PMDB, o governo e as incertezas quanto ao futuro imediato

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

29 Março 2016 | 20h00

Das três alternativas da oposição para abreviar o mandato da presidente Dilma Rousseff - a condenação de suas contas de campanha pelo TSE, impeachment ou sua renúncia -, o afastamento pelo processo de impeachment, aberto na Câmara dos Deputados, se coloca como praticamente irreversível. Essa possibilidade ficou ainda mais evidenciada pelo fato de o PMDB ter rompido com o governo e, também, em razão de o PSD ter liberado sua bancada para que cada parlamentar se posicione da forma que julgar mais conveniente. Como o governo chegou a essa situação? Aponto aqui algumas respostas possíveis. Duas são relativas à incapacidade de o governo coordenar a relação política com sua base de apoio, e mais especificamente com o PMDB, e três referem-se a escolhas dos peemedebistas que decorrem da longa instabilidade política vivida pelo País.

No que se refere aos erros de coordenação política, destaca-se a incapacidade do governo em coordenar a base de apoio parlamentar que resultou tanto do processo eleitoral de 2014 como da formação da própria coalizão governamental. Durante as eleições de 2014, o processo foi tenso e mal conduzido. Partidos que haviam se descolado do PT para lançarem candidaturas próprias ou apoiarem outros candidatos, como o PSB e o PTB, além de várias seções estaduais do PMDB, acabaram entrando em conflito com a campanha petista, o que dificultou a cicatrização de feridas e consolidou uma tendência oposicionista nessas legendas ou em boa parte de seus parlamentares. A composição ministerial, por sua vez, demorou muito a ser feita e provocou mais conflitos do que uniu os partidos da base. Nessa mesma linha, mesmo diante da eminente derrota na eleição à presidência da Câmara dos Deputados, e na tentativa de viabilizar um nome petista, a coordenação política do governo optou pelo conflito aberto com a maior parte da bancada do PMDB em vez de buscar a pacificação. Isso, já no curto prazo, se desdobrou numa relação conflituosa a ponto de o governo perder embates importantes no Poder Legislativo em momentos cruciais para implementar o prometido ajuste fiscal, que acabou não vingando.

Quanto à relação direta do governo com o PMDB, convém lembrar que o apoio dos peemedebistas à reeleição de Dilma Rousseff foi aprovado por 59% dos delegados presentes em sua convenção nacional em junho de 2014. O resultado demonstrou o tamanho do grau de insatisfação (41%) dos convencionais do partido com a manutenção da aliança. Apesar de não ser novidade, pois o PMDB não esteve inteiro nem no governo FHC, não se viu por parte da coordenação política de Dilma Rousseff uma ação efetiva para diminuir a crescente resistência entre os peemedebistas a seu governo. O papel secundário atribuído ao vice-presidente Michel Temer, tanto no governo como na relação do Planalto com o PMDB, ajudou a tornar a aliança PT-PMDB insustentável. Temer só era chamado a ser interlocutor do governo junto ao seu próprio partido em momentos de extrema tensão e quando uma solução já se tornava impossível em face das divisões internas do PMDB ou mesmo de como o governo conduziu as negociações com os diferentes grupos do partido.  

Esse imbróglio deve resultar em algo inédito na história recente do PMDB: o partido, pelo menos no discurso, aparenta sair unido em torno do processo de impeachment. Três fatores de ordem interna ao PMDB, para além da relação tensa com o governo, também empurraram o partido para a oposição. O primeiro tem a ver com a crise econômica que deteriorou a imagem de Dilma Rousseff em todas as classes sociais e fez o mercado se posicionar favoravelmente ao impeachment com a mensagem (para muitos governistas conspiratória) de que os investimentos e um ambiente econômico melhor só retornariam com a saída de Dilma, deixando o governo praticamente sitiado. O segundo fator advém do desafio político do ano eleitoral de 2016. Se afastar de um governo que é avaliado negativamente por 2/3 da população, mesmo sendo corresponsável por ele, é uma forma oportuna (ou mesmo oportunista) de tentar diminuir o custo eleitoral que recairia sobre os candidatos do PMDB. Por fim, não se deve descartar um terceiro fator: chegar à Presidência da República. Dificilmente, dada as suas clivagens internas e a ausência de uma liderança nacional que alie confiança social e capacidade de unir diferentes interesses políticos, o PMDB não chegaria tão cedo, pela via eleitoral, ao Palácio do Planalto como se parece desenhar. Entretanto, algumas dúvidas permanecem frente a essa possibilidade: a posse de Temer com o apoio do PSDB trará estabilização política? Os grupos que protestam contra a corrupção dariam trégua ao governo do PMDB? Eduardo Cunha sairá inteiro desse processo? Tais respostas são difíceis de serem dadas uma vez que os movimentos de rua têm sido surpreendentes desde 2013.

Por fim, com a decisão do PMDB de desembarcar do governo, a tendência é que outros partidos, ainda na base governista e com bancadas expressivas como o PR e o PP, ou sigam os peemedebistas ou liberem os votos de seus parlamentares, como fez o PSD. Se isso ocorrer, Dilma contará apenas com o apoio integral das bancadas do PT, PC do B e PDT, o que somaria cerca de 100 deputados, número ainda distante dos 172 necessários para escapar do impeachment, mas que pode ser buscado nas cisões que devem ocorrer nas bancadas de partidos como o PTB, o PR, o PP, o PROS e do próprio PMDB. Mesmo diante um cenário que ainda parece incerto, é possível afirmar que a dificuldade para a gestão Dilma Rousseff se manter viva será extrema. 

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.