Análise - O que esperar do 'amanhã'?

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Murilo Gaspardo*, O Estado de S.Paulo

17 Março 2016 | 20h31

Nestes tempos sombrios, é imperativo refletirmos sobre o 'amanhã'. O que teremos quando a crise passar? 'O amanhã' da Independência foi a entrega do comando do Brasil ao filho do monarca da metrópole, o Poder Moderador, a permanência do escândalo da escravidão. Com a proclamação da República, não foi diferente: seguiram-se o coronelismo, a ditadura do Estado Novo, um breve período democrático e o golpe civil-militar de 1964. A redemocratização ocorreu sem um completo acerto de contas com o passado autoritário.

Houve avanços? Obviamente, e não foram poucos: garantia das liberdades públicas e dos direitos sociais, estabilização econômica, redução da desigualdade social. Entretanto, tudo foi construído em bases frágeis e as conquistas encontram-se ameaçadas. Especificamente no campo político, a Constituição de 1988 nos legou eleições diretas, instrumentos para punição dos corruptos etc., mas o patrimonialismo continua a ser um componente estrutural do Estado brasileiro e a soberania popular permanece bloqueada por interesses privados nacionais e internacionais. Além disso, a sociedade segue infantilizada: personalizamos o bem e o mal, simplificamos o que é complexo, esperamos por um salvador da pátria, seja um líder político carismático ou um juiz redentor da corrupção.

Será que a tendência do 'amanhã' da crise atual será repetir o 'ontem' da história brasileira? Passada a turbulência, as estruturas de dominação, desigualdade social e limitação da soberania popular permanecerão íntegras, ou mesmo reforçadas? Parece ser esse o cenário mais provável se o debate seguir concentrado na troca do comando do Poder Executivo e a mobilização social restrita às passeatas, sem que sejam atacadas as raízes desta crise e ocorra o envolvimento de todo o povo em uma prática política diuturna.

Entretanto, é preciso conservar a esperança. Boaventura de Sousa Santos escreve que devemos realizar uma análise 'radical da política do possível, sem ceder a uma política do impossível', de maneira que a 'ação conformista' seja substituída por uma 'ação-com-clinâmen', criando-se 'condições que maximizam a probabilidade' de ocorrer o inesperado. E o que mais precisamos hoje é que o inesperado aconteça. Porém, para tanto, é necessária muita disposição para o diálogo, para a construção coletiva e para o aprendizado com processos sociais contra-hegemônicos, como a recente ocupação das escolas paulistas pelos estudantes.

* Murilo Gaspardo é professor de Teoria do Estado da Unesp de Franca

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