Análise - Os protestos de março e a crise política brasileira

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

09 Março 2016 | 21h00

Os protestos de 15/03/2015 marcaram o início de uma enorme pressão social contra o governo, surpreendendo pela quantidade de pessoas que foram às ruas. Na cidade de São Paulo, a manifestação reuniu de 200 mil pessoas, segundo o Datafolha, e mais de 1 milhão de acordo com a Polícia Militar (PM). As pautas eram bem variadas: indignação contra escândalos como o mensalão e o petrolão; denúncia de estelionato eleitoral por parte da campanha de Dilma Rousseff; contra o aumento de tarifas de energia elétrica e combustíveis, e também expressando indignação com a elevação de gastos da Câmara dos Deputados, além da deterioração da economia, dentre outras. Tidos como espontâneos, mas convocados por grupos organizados nas redes sociais, os protestos públicos interessavam diretamente a oposição que já questionava a vitória de Dilma no TSE desde o final do segundo turno. É importante lembrar que, nesses protestos, foram registrados a presença de grupos minoritários, mas barulhentos, que defendiam a intervenção militar, enquanto os demais grupos defendiam o impeachment da presidente da República ou, simplesmente, diziam se posicionar contra os escândalos de corrupção no governo. Após um ano dessas primeiras manifestações de grandes proporções contra o governo Dilma, o que mudou e o que se espera das que estão previstas para 13/03/2016?

É importante destacar que as demandas dos protestos de 15/03/2015 permanecem sem resolução ou até mesmo se agravaram enquanto problemas. Vive-se um crescimento inflacionário decorrente da piora dos indicadores econômicos. Também se registra um profundo mal-estar com os desdobramentos da Lava Jato, que trouxe, inclusive, danos negativos à imagem da principal liderança do PT, o que enfraquece ainda mais o próprio governo na sua tentativa de evitar o processo de impeachment. Além disso, os achados do chamado petrolão ameaçam a prestação de contas da campanha de 2014 da chapa governista, o que pode ser letal no julgamento do pedido de impugnação da chapa Dilma-Temer impetrado pelo PSDB, que ainda está em tramitação no TSE.

A dimensão da adesão pública aos protestos do próximo domingo está sendo cercada de expectativas tanto por parte de seus organizadores - que querem o afastamento da presidente Dilma - como por parte do governo - que tenta sobreviver. O episódio envolvendo a diligência da Polícia Federal na residência do ex-presidente Lula, assim como a sua condução coercitiva para depor, está sendo visto pelos organizadores como um divisor de águas, que pode aumentar o número de pessoas interessadas em aderir os protestos e pressionar o Congresso para que aprecie o quanto antes a abertura do processo de impeachment. O governo, por sua vez, teme exatamente que isso ocorra, como também teme a possibilidade de confrontos entre defensores de Dilma e os que querem afastá-la, o que poderia trazer comoção social e pressionar ainda mais o já enfraquecido governo Dilma.

Entre 15/03/2015 e 13/03/2016, as crises política e econômica se intensificaram. Os grupos pró-intervenção militar perderam espaço e foram rechaçados pelos demais; por isso fazem menos barulho nos dias de hoje. Os partidos de oposição, que participavam timidamente dos primeiros protestos, passaram a fazer convocações públicas para as manifestações em suas inserções de rádio e televisão na tentativa de consolidar apoio popular ao evento e de buscar legitimidade política para as lideranças de oposição num eventual novo processo eleitoral. Setores empresariais, que antes apenas assistiam à crise e pediam moderação para melhorar o ambiente econômico do País, passaram a fazer críticas mais duras ao governo. 

Todavia, essa história parece ainda longe do seu final. O desfecho não depende apenas da quantidade de pessoas que vão participar das manifestações e da pressão que pode provocar no Congresso Nacional ou no TSE. Desdobramentos da delação de Delcidio, que parecem ir além de Lula e do PT, ainda são impossíveis de ser dimensionados, assim como novas delações de empresários arrolados na Lava Jato também prometem mais capítulos incertos na conturbada crise política brasileira, com potencial para alterar o atual fluxo dos fatos. Enquanto isso, parece se fortalecer a sensação de que o governo Dilma está ficando cada vez mais isolado, tanto em apoio político como em relação à opinião pública, o que coloca no horizonte a possibilidade de que ele pode acabar antes de 2018.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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