Análise - Passaporte para o passado

Michel Temer tomou posse hoje e indicou seu novo ministério. Nele, junta Cultura com Educação, Comunicações e Ciência e Tecnologia, além de não ter sequer uma mulher representada na cúpula do seu governo. Além disso, os ministros são na sua imensa maioria políticos de carteirinha, com parca capacidade técnica e experiências nas pastas que assumem. Suspeitos de corrupção abundam. 

Rafael Alcadipani*, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2016 | 20h30

Não é segredo para ninguém que o desenvolvimento de países no mundo está intimamente atrelado a políticas de ciência e tecnologia e gastos na área. Juntar Comunicações com Ciência e Tecnologia é rebaixar o status da ciência brasileira em que cientistas são heróis praticamente solitários que lutam contra todos os tipos de problema. A desarticulação do Ministério é um erro grave. Mais grave ainda é entregar a pasta a um político profissional que já demonstrou sua completa falta de compromisso quando prefeito de São Paulo foi. Michel Temer ataca de forma direta a ciência brasileira.

Um dos grandes motes que tirou Dilma do poder foi o combate a corrupção. Ao nomear envolvidos em escândalos para ministérios, Temer vira as costas para o anseio da sociedade e monta um ministério para governar ao estilo que o Brasil está cansado. O ministro da Justiça, quando secretário de Segurança Pública, mostrou que conduz questões sociais com 'mãos de ferro'; é afeito aos holofotes e partidariza completamente as suas ações. A junção de Cultura com Educação é diminuir o status da cultura em um país tão necessitado de políticas específicas para a área. 

A completa e total ausência de mulheres entre os ministros de Temer é uma barbaridade. Oficialmente, quase que 50 mil estupros são notificados no Brasil. Como se trata de um tipo de crime com baixa notificação, imagina-se que cerca de 150 mil mulheres são estupradas no País por ano. Demais formas de violência contra a mulher são praticadas às centenas de milhares no Brasil. Além disso, é consenso entre especialistas o papel que desempenha os 'modelos' para que as pessoas possam se espelhar para se desenvolverem na vida. A ausência de mulheres no ministério de Temer é desprezar e ir contra toda a luta que tantas mulheres realizaram no Brasil e no mundo para poderem conquistar espaços em posições de comando. É ir a favor da ideia que mulheres devem ser 'belas, recatadas e do lar', tratando-as como meros objetos para o deleite masculino. Temer está negando às mulheres do Brasil uma posição de destaque na decisão dos rumos que toma o nosso País. 

Seu ministério é um convite para o Brasil do passado. Um Brasil que não investe em ciência, que não encara a cultura como algo importante, que não enfrenta a corrupção e que é governado pelos conchavos políticos de sempre - que levam a miséria ao nosso povo. Ao apresentar um ministério de homens brancos e políticos tradicionais, Temer nega representação a toda a diversidade do povo brasileiro. A ausência de negros revela a presença do racismo atávico de nosso país. O ministério de Temer é a volta simbólica da mulher e do negro para um papel subalterno nas decisões que impactam o País. Temer começa mal, muito mal, oferecendo ao Brasil um verdadeiro passaporte para o passado. Um passado machista e racista que se manifesta mais presente do que nunca.

* Rafael Alcadipani, professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA

 

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