Análise - Projetos de poder ou problemas do País: o dilema político atual

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2016 | 22h00

A prisão do publicitário João Santana, responsável pela condução das campanhas de Lula (2006), Dilma (2010 e 2014) e do prefeito Fernando Haddad (2012), dentre outras, vem se somar a um conjunto de más notícias que envolvem lideranças nacionais com projetos políticos para 2018 ou com capacidade de influenciar as eleições municipais vindouras. O fato, dependendo dos seus desdobramentos, pode trazer consigo um efeito social devastador: contribuir para o aumento da descrença social nas atuais lideranças e partidos. Em outras palavras, pode ser feita a seguinte pergunta: quem vai liderar o País na busca de caminhos para a superação dessa crise? Tanto petistas como tucanos, personagens centrais desse momento, parecem se enfraquecer ao terem quadros importantes desses dois partidos envolvidos em denúncias de irregularidades. 

O ex-presidente Lula continua não explicando, de forma convincente, as denúncias relativas ao tríplex no Guarujá e ao sítio de Atibaia numa possível conexão com a Odebrecht. Fernando Henrique Cardoso (FHC), que teve fatos de sua vida pessoal escancarados publicamente, está sendo chamado a explicar denúncias de irregularidade envolvendo repasse de recursos financeiros para o exterior. Cobrar de FHC mais do que isso é invadir sua vida privada e repetir o episódio Miriam Cordeiro ocorrido com Lula em 1989. O governo Geraldo Alckmin, que já vinha sofrendo um enorme desgaste de imagem decorrente da forma como conduziu a chamada reestruturação escolar, agora se vê envolvido em suspeitas de desvios na merenda.

Enquanto a repercussão dos escândalos de corrupção mais recentes se restringiram ao PT, os tucanos vinham se apresentando como alternativa moral aos petistas. Com a eclosão do mensalão em 2005, o tema corrupção vem ocupando a pauta de todas as eleições e motivos para isso não faltaram. Criou-se uma visão de que a competição política se dividia entre os acusados de serem usurpadores dos recursos públicos (preferencialmente petistas) e aqueles que estavam prontos para colocar ordem na casa (notadamente tucanos e demistas). Parecia que a corrupção no governo brasileiro havia surgido somente após as eleições de 2002. Todavia, se recuarmos aos anos 1990, essa história de conflito entre petistas e tucanos pode ser contada com fatos parecidos, mas com a inversão de papéis entre os dois partidos.

Parlamentares petistas acusaram Fernando Henrique Cardoso de ter cometido estelionato eleitoral em 1998 quando prometeu um segundo mandato com criação de empregos e crescimento da economia, apesar de todos os indicadores apontarem para um quadro recessivo, o que de fato acabou acontecendo. Acusaram, ainda, o governo FHC de tentar obstruir a CPI dos bancos e os trabalhos de investigação do Ministério Público Federal (MPF) sobre denúncias de corrupção, e abriram campanha pelo impeachment de Fernando Henrique Cardoso. O então deputado federal, Aécio Neves, em defesa do governo, classificou a oposição de frustrada por não ter aceitado o resultado das eleições. O próprio FHC já havia criticado publicamente a Polícia Federal e o MPF pelas diligências que ambos fizeram na casa de Francisco Lopes, ex-presidente do Banco Central.

No que olhar para o comportamento desses dois partidos no passado recente pode nos ajudar a entender a crise atual? Na identificação de uma enorme dificuldade de ambos em colocarem o interesse público acima de seus projetos de poder. O PT, que no passado votou contra o Plano Real e defendeu o impeachment de FHC agora presencia os tucanos agindo da mesma forma: votando contra medidas do ajuste fiscal e buscando por todos os meios interromper o mandato de Dilma Rousseff. Buscando conter consequências negativas identificadas em pesquisas no que se refere a sua postura frente aos problemas imediatos do País, o PSDB passou a acenar com a possibilidade de diálogo com o governo em torno de uma pauta que envolva a Reforma da Previdência. Entretanto, faz uma exigência: que o PT assuma publicamente a defesa dessa reforma, algo que petistas não querem fazer. Ao colocar seus objetivos de poder acima da construção de acordos que possibilitem minimizar os efeitos da grave crise econômica que passa o Brasil, tucanos e petistas podem estar abrindo um vácuo político que não se sabe, ainda, muito bem por quem e em nome de quais projetos será ocupado. O melhor caminho neste momento seria separar projetos de poder do debate acerca de problemas do País, mas, ao que parece, ambas as legendas não demonstram muita vontade de percorrer esse trajeto.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

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