Análise - Quem ocupa a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo?

O plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo está ocupado por estudantes que exigem que o parlamento abra uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o suposto esquema de corrupção na aquisição de merendas no Estado. A invasão aconteceu nessa terça-feira, 3, e foi capitaneada por entidades estudantis. A nota lamentável foi a agressão que um deputado do PT realizou contra um soldado da PM que estava lá exercendo o seu trabalho. Um parlamentar não pode desrespeitar um servidor público desta maneira. A coisa fica mais grave se tratando de um policial que trabalha para garantir a lei. 

Rafael Alcadipani*, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2016 | 13h29

A invasão e a ocupação de um parlamento é um sintoma grave do Estado periclitante em que se encontra a democracia brasileira. Goste ou não dos deputados, eles estão lá exercendo um mandato popular que é essencial para o bom funcionamento da nossa democracia. Uma ocupação como esta escancara a falta de credibilidade da política hoje. O momento brasileiro é bastante peculiar. Uma presidente está sendo afastada de suas funções por crime de responsabilidade. Milhões ocuparam as ruas em nome de um mudança na forma de se fazer política. O combate à corrupção é o tema do dia. A política está imersa em um clima de ódio mútuo. 

Há vasto consenso na sociedade brasileira que a melhoria do nosso país passa por uma educação de qualidade. O presidente da Assembleia é acusado de envolvimento no esquema da merenda que afeta diretamente a educação do Estado de São Paulo. Diga-se de passagem, o sistema educacional do Estado está muito, mas muito aquém do poderia econômico que São Paulo possui. Escolas com infraestrutura precária, professores estressados e mal remunerados, e por ai vai, lembrando que o Estado de São Paulo é administrado há muito tempo pelo mesmo grupo político. Tais fatos provam a falta de compromisso do PSDB paulista com o tema educação. 

Diante de um escândalo de corrupção como o da merenda em São Paulo, a base de sustentação do governador está agindo claramente para impedir que uma investigação dos fatos aconteça. Inúmeros deputados estaduais, que criticam a corrupção do governo federal participam de atos e de passeatas pela queda da presidente, estão calados diante do escândalo da merenda. O parlamento hoje ocupado por estudantes está, na verdade, há muito mais tempo ocupado por inúmeros políticos que falam uma coisa, mas fazem outra. Que ganham do erário público benefícios absurdos como assessores, carros com motoristas e tantas outras coisas para agir contra os interesses da população. Na realidade,  um dos principais problemas do Brasil é que tanto o Congresso Nacional quanto as Assembleias Legislativas estão tomadas por políticos que usam o mandado do povo para beneficiar apenas o seu grupo político cujos interesses estão, muitas vezes, contra os interesses do povo. Paradoxalmente, a ocupação da Alesp por estudantes é a possibilidade de que os interesses espúrios de políticos que fecham os seus olhos para a corrupção dominem a casa de leis. A desocupação da Assembleia e do Congresso só vai ocorrer com uma reforma política séria e profunda, urgente para que o Brasil saia do atoleiro institucional em que se encontra. O governador do Estado e a sua base de sustentação precisa deixar de lado a hipocrisia de exigir uma coisa a respeito do governo federal e fazer o oposto no Estado.

* Rafael Alcadipani é professor de Estudos Organizacionais da FGV-EAESP e visiting scholar no Boston College, EUA

 

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