Análise - Retrocesso civilizatório

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael R. Ioris*, O Estado de S.Paulo

17 Março 2016 | 20h27

Sou velho suficiente pra me lembrar do saudoso Betinho e da sua campanha contra a fome: "Quem tem fome tem pressa"! Aí me parecia o início de um novo país, mais igualitário e democrático já que muitos se engajaram nessa ideia. Lembro também de uma época em que os militantes do MST em marcha eram recebidos nos trevos de entrada das cidades do interior do País por pessoas de todos os grupos e segmentos sociais com mantimentos, comida, cobertores doados para que eles pudessem continuar sua marcha até Brasília para defender o que parecia então algo que tinha o amplo apoio da população: a Reforma Agrária. Era ainda um período de dor da saída de um regime de exceção, e havia muitas dúvidas no ar. Mas era também um momento de otimismo e esperança de uma sociedade vibrante que ansiava por melhorias políticas e sociais.

Depois, ainda que tivéssemos uma crescente polarização partidária, avançávamos nos campos democráticos e mesmo econômicos. A estabilização do fantasma da inflação, por meio da abertura comercial, se penosa para tantos, parecia representar também nosso amadurecimento e um possível crescente protagonismo no cenário internacional.

Mais recentemente, muitas de nossas esperanças pareciam se materializar com a bonança e otimismo da era Lula, quando cheguei a pensar que estávamos a ponto de um mudança de patamar no nosso velho ranço oligárquico/escravocrata do 'sabe com quem está falando'. O Brasil era então a principal democracia emergente do mundo, reconhecida ao redor do mundo, e nos tornávamos, novamente, um destino migratório para trabalhadores, profissionais liberais e empresários de várias partes do mundo. Parecíamos estar em uma nova fase histórica, como democracia madura e inclusiva.   

Pura ilusão! De fato, o que temos visto ao longo dos últimos anos é que o passado teima em nos aprisionar. Se havia alguma espécie de consenso mínimo, de matriz católica, pela doação de cesta básica no Natal, agora tratava-se de ter que aceitar partilhar dos mesmos espaços públicos, como aeroportos e universidades, com pessoas que normalmente não estariam naquela lugar. E embora para muitos o PT tenha radicalizado nossa ordem institucional ao tentar implantar políticas de quotas e ampliar programas sociais, o que de fato impressiona é como a tolerância para esse tipo de política pública é ainda terrivelmente baixa em nosso país. Parece mesmo que estamos, a cada dia, perdendo cada vez mais a chance, talvez nossa última por um bom tempo, de avançar como nação. 

Ninguém sabe ainda o que vai acontecer. Mas é certo que a estrutura viciada e mesmo a lógica carcomida de funcionamento, por meio de troca de favores claramente questionáveis, da nossa já tão desgastada e crescentemente decrépita Nova República, ficou ainda mais à mostra nos últimas semanas. Dentro desse contexto, a pergunta que muitos têm feito, seja de forma privada ou pública, é: e agora? 

De um lado, temos a opção de supostamente 'limpar o sistema' via uma espécie de transferência de autoridade das lideranças eleitas para figuras representativas de instrumentos legítimos de ação, mas que não têm nenhuma obrigação formal de responder à opinião pública, a não ser por meio de apelos midiáticos de ocasião. Concretamente, se embarcarmos de vez na lógica do justiciamento em curso, ainda que essa estivesse sendo conduzida sem o viés ideológico que tem se visto tão frequentemente, estaríamos assim adentrando ainda mais em um caminho perigoso e sem precedentes que pode efetivamente nos levar a uma espécie de governo das manifestações de rua - algo que pode parecer, mas que de fato não é democrático (muito menos viável). Seríamos então a república onde se 'ganha no grito', caminho propício para o surgimento de um salvador da pátria a quem nada pode ser questionado, pois seus interesses são supostamente nobres, neutros e estariam acima das vontades particulares. Este é o modelo de regimes autoritários, sejam eles bonapartistas ou fascistas. Não de democracias modernas.  

Como alternativa, poderíamos nos valer deste momento difícil para reconstuir e fortalecer nossas instituições políticas e de representação popular. Essa certamente não seria uma tarefa fácil e, no meio do turbilhão que estamos vivendo, talvez nem seja a mais provável. Mas seria certamente a mais promissora e construtiva opção. Os desafios aqui são inúmeros, e o atual clima de alta polarização ideológica não é o mais propício. Contudo, se queremos renovar nossos votos no caminho democrático, precisamos evitar o imediatismo partidário e buscar a lógica republicana.

Em vez de aprofundar o fosso ideológico e mesmo emocional entre nós, poderíamos nos valer do atual momento para tentar construir formas de diálogo entre as principais lideranças políticas do País. Por um lado, o governo teria que se provar acima dos interesses do seu partido e chamar todos para debater uma ampla reforma político-partidária que, entre outras questões, tratasse do atual sistema de financiamento eleitoral vigente. Da mesma forma, as oposições teriam também que ser mostrar à altura do momento, aceitar o convite e apresentar propostas. Esta talvez seja uma das nossas últimas oportunidades de diálogo e cooperação em prol não de um governo de união nacional, mas da defesa da nossa própria democracia.

* Rafael R. Ioris é professor assistente de História e Política Latino-Americana na Universidade de Denver

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