Análise - Riscos de uma disputa que ultrapassa a prática democrática

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

21 Março 2016 | 20h12

O impasse político que assola o País vai além da simples disputa política que se instalou no Brasil entre PT e PSDB com a eleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 1994. Desde a posse de FHC até o primeiro mandato de Lula, a competição entre os dois partidos explicitava diferenças de concepções em questões como privatização, controle inflacionário, reforma da previdência, reforma agrária e política salarial, dentre outras questões. Mesmo nos momentos de crise do governo tucano, em que o PT fazia oposição sistemática e chegou, inclusive, a pedir impeachment de FHC, não se perdeu a possibilidade de se estabelecer um debate de ideias. Não por acaso, o Partido dos Trabalhadores se transformou em alternativa de poder em 2002. 

Todavia, com a eclosão do escândalo do mensalão em 2005, o debate de propostas foi sendo substituído por um confronto direto em torno do problema da corrupção. Essa foi a tônica do processo eleitoral de 2006, mas que não chegou a ganhar totalmente a agenda eleitoral. Lula tinha apoio popular e maioria legislativa que permitiram controlar os desdobramentos políticos do mensalão, a ponto de ele ser reeleito. A economia do País estava num momento positivo, o que evitou defecções na base de apoio e blindou um possível desgaste governamental perante a opinião pública. Mas o carimbo de corrupto direcionado ao PT começou a ser disseminado como se o partido tivesse inventado a corrupção no Brasil. 

O PSDB, em eleições subsequentes, inclusive para governos subnacionais, adotou o discurso anticorrupção como plataforma eleitoral e vendeu a ideia de que havia uma disputa entre um lado comprometido com a probidade e o outro que se explicitava no escândalo do mensalão. O PT, por sua vez, em vez de enfrentar seus demônios e assumir os erros cometidos, negava fatos e ainda homenageava lideranças políticas envolvidas no escândalo, mesmo após serem condenadas. Com o surgimento da Operação Lava Jato, que tomou a agenda eleitoral de 2014, os petistas começaram a sentir que a disputa política passou a extrapolar os limites da rivalidade com o PSDB. O partido, provavelmente, não entendeu que estava perdendo o debate na opinião pública desde o momento em que insistiu em justificar seus erros em vez de assumi-los e mostrar ações concretas no sentido de corrigi-los.

O drama político atual do PT é reflexo de um isolamento que vem da dificuldade de enfrentar os problemas que causaram a deterioração de sua imagem pública, e que se acentuou ainda mais com o desempenho negativo do governo Dilma. Partidos da base de apoio abandonando o governo, setores empresariais iniciando campanhas explícitas pelo impeachment, assim como a adesão da OAB nacional ao pedido de afastamento da presidente Dilma, refletem o tamanho desse isolamento. Entretanto, o grau de rejeição ao Partido dos Trabalhadores tem chegado ao limite do ódio e despertado reações perigosas: a crítica política democrática não tem sido o único recurso utilizado pelos grupos contrários aos petistas. Atentados contra sedes do partido em diversos lugares do País e alguns discursos públicos proferidos por políticos pregando a eliminação do PT são alguns dos exemplos de ações que extrapolam a tolerância e colocam em risco a liberdade democrática. 

Quando, em qualquer espaço público em que se concentrem eventos políticos, sair de camisa vermelha - ou mesmo azul - pode se traduzir em risco de vida, fica evidente que estamos diante de uma situação que vem sendo desencadeada por grupos minoritários que flertam com inspirações autoritárias. Isso vem ocorrendo aos olhos das autoridades públicas sem que providências concretas sejam tomadas no sentido de contê-las. Ou seja, se a disputa fosse apenas entre PT e PSDB, estaríamos numa situação bem melhor já que o histórico anterior era o de debate de projetos. 

Numa democracia, o que deve enfraquecer um partido, a ponto de torná-lo inviável politicamente, são as eleições e não a violência. Assim como também são as urnas que legitimam novas lideranças políticas mais sintonizadas com demandas democráticas de uma sociedade que parece estar à frente da classe política que a dirige.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

 

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