Análise - Temer o vice

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael R. Ioris*, O Estado de S.Paulo

21 Março 2016 | 20h16

Nos idos de setembro de 2002, às vésperas da eleição presidencial na qual Lula concorria contra Serra, em uma recepção na embaixada brasileira em Washington, o grande brasilianista Thomas E. Skidmore, ao ser perguntado sua posição naquela histórica eleição, respondeu brincando: tem que saber quem é o vice!

Com essas palavras, o professor Skidmore, que ainda é um dos maiores estudiosos da história política da segunda metade do século XX em nosso país, parecia estar não só jocosamente evitando se comprometer com uma posição política dentro do contexto de uma eleição acirrada e polarizada, mas também expressando uma sábia percepção da nossa lógica política. De fato, como um dos melhores analistas do período do suicídio de Vargas em 1954, Skidmore sabia bem o papel que desde então tem sido desempenhado por muitos vice-presidentes. 

A se confirmar que o atual vice-presidente, Michel Temer, está de fato em tratativas com membros da oposição, entre eles especialmente o senador José Serra, do PSDB, partido derrotado na última eleição presidencial, para formar um eventual ministério pós-impeachment da presidente Dilma, nos encontraríamos, mais uma vez, numa situação, inusitada mas recorrente, de protagonismo vice-presidencial. E ainda que possamos argumentar que como novo mandatário, o novo presidente estaria autorizado a montar sua própria equipe, cabe refletir a legitimidade de um novo governo composto e concebido por atores políticos da oposição.

De modo concreto, e aqui fica claro o papel de uma reflexão com base em exemplos históricos possíveis de dentro mas também de fora do nosso país, quando Kennedy foi assassinado, Lyndon Johnson, seu vice, cuja política externa foi tão prejudicial não só para o Vietnã mas também para o seu próprio país, foi não obstante coerente com o ideário do seu antecessor e aprofundou de maneira clara os ideais progressistas da plataforma eleitoral vitoriosa em 1960. Ainda que em menor intensidade, poderíamos mesmo pensar, já dentro do contexto doméstico, que ambos Itamar e talvez mais ainda Sarney foram, cada qual da sua maneira, presidentes de continuidade que avançaram, ainda que maneira conturbada, uma agenda com amplo apoio social, seja a estabilização econômica, seja a escrita de uma nova constituição.

Tragicamente, ao se associar não só com membros do seu próprio partido, mas também com importantes lideranças da oposição, Temer não estaria tentando promover um governo de coalizão nacional, pois para tanto teria que também estar pensando em uma ampla agenda de reforma política, mas sim reavivando a experiência histórica de Café Filho que, ao ser alçado à Presidência, monta um novo gabinete composto essencialmente por lideranças formal ou informalmente ligadas ao principal partido da oposição de então, a UDN. Agindo assim, Temer estaria atuando segundo uma lógica de estelionato eleitoral ao invés de ser coerente com o projeto eleitoral que o levou ao poder, ainda que no papel coadjuvante.

Na hipótese de se confirmar um governo Temer, será que o nosso grande jurista vai querer ser lembrado como um presidente de reconciliação nacional ou como um personagem menor da nossa história, similar ao vice trabalhista medíocre de meados do século? 

* Rafael R. Ioris é professor de História e Política Latino-Americana na Universidade de Denver

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