Análise - Um futuro ainda mais incerto

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Marco Antonio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2016 | 19h52

Existia a expectativa de que o presidente interino Michel Temer assumisse o governo enfrentando poucos protestos públicos e de que eles ficariam restritos aos simpatizantes do PT, assim como também se esperava que o 'novo governo' conseguisse ganho de confiança social necessário para tomar medidas impopulares, mas consideradas importantes pelos seus apoiadores, para a retomada do crescimento econômico. Entretanto, o que se observa até o momento são dois fatores de desgaste: 1) o crescimento de protestos que tem mobilizado não mais apenas os apoiadores do governo petista contra a posse de Temer e; 2) a dificuldade do presidente interino em coordenar uma equipe ministerial cuja composição, exceto na área econômica, tem mais a ver com a fatura do impeachment e com a formação de maioria parlamentar do que com a busca do melhor resultado em políticas públicas. 

A opção pelo pragmatismo na negociação política já vem rendendo dificuldades ao governo. Extinguir ministérios sem ponderar a opinião de técnicos, gestores e de stakeholders importantes em cada uma das áreas vem proporcionando descontentamentos generalizados que emperram o trabalho em alguns ministérios. 

A nomeação de um líder religioso para o Ministério da Indústria e Comércio, sem experiência na área, provocou descontentamento no setor industrial, mas teve como contrapartida a garantia de apoio político do PRB. Esses são apenas alguns dos exemplos que revelam inabilidade política e que dificultaram o objetivo de formar um governo de união nacional. Episódios como tornar ministros nomes que são citados em escândalos políticos e a efêmera crise com os militares na escolha do ministro da Defesa não eram de se esperar no governo de quem já presidiu a Câmara dos Deputados, comandou o maior partido do País e foi vice-presidente da República.

É verdade que Michel Temer tem, com isso, maioria parlamentar suficiente para aprovar projetos importantes para o seu governo. Mas também é verdade que a heterogeneidade de interesses de sua base de apoio não lhe garante tranquilidade na condução das pautas governamentais no Congresso. O fato de Eduardo Cunha ter indicado pessoas de sua confiança para ocupar posições de governo incomoda aliados como o PSDB e o DEM. Todavia, não se aprova nada na Câmara, neste momento, sem que o novo centrão, liderado por aliados de Cunha, esteja incluído no acordo. Ou seja, Cunha tornou-se um espectro a assombrar o novo governo. Mesmo com maioria numérica, o governo do PMDB vai precisar de muito esforço de negociação e tolerância mútua para coordenar sua maioria parlamentar.

Por fim, observa-se que a política de Temer para garantir maioria no Congresso está desconectada das expectativas sociais verificadas nas manifestações públicas em defesa do impeachment que viabilizaram sua posse como presidente interino. Bom lembrar que nos tempos atuais a negociação congressual é apenas uma parte da estabilidade política. Se o governo não conseguir responder rapidamente aos problemas econômicos, fatalmente sua rejeição social, que não é pequena, vai aumentar, o que pode enfraquecê-lo perante o Congresso e tornar o futuro ainda mais incerto do que já parece.

* Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor de Ciência Política na FGV-SP

 

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