Análise - Fé e espada

Texto publicado originalmente no Estadão Noite

Susani Silveira Lemos França*, O Estado de S.Paulo

28 Março 2016 | 22h00

Em épocas de polarizações é especialmente difícil compreender os que estão do polo oposto. Houve quem, para tentar entender os defensores do poder atual, destrinçasse os elos políticos, houve quem apontasse os comprometimentos econômicos, houve quem traçasse paralelos com nosso passado recente e houve quem apelasse até para grandes modelos explicativos do limiar do século para tentar entender tamanha capacidade de afrontar nossos pactos de verdade. 

Como nossa criatividade é, entretanto, em grande parte alimentada pelo que já vimos e nossos possíveis são moldados pelo nosso passado, uma outra imagem, a de uma seita, emerge quando assistimos à reação recente diante de uma investigação policial envolvendo um líder carismático. Exalta-se uma doutrina salvacionista, difusamente definida, mas claramente nomeada de 'esquerda', designação por si só garantidora da beatitude do lado escolhido. Repetem-se fórmulas sonoras que, de tão repetidas, como os bordões de guerra, ganham ares de verdade absoluta e detratora de quaisquer dados que possam comprometer a elevação da bandeira identificada com o bem. Reinventa-se uma imprensa oficial com ares de imprensa alternativa, mas com financiamento público e indicações de pauta vindas de cima. Condenam-se à fogueira dos rótulos deslegitimadores todos aqueles que, identificados com etiquetas como 'imprensa golpista', 'elite branca', 'coxinhas', ousam suspeitar da integridade de um líder cuja proveniência humilde, a despeito do enriquecimento lícito ou ilícito que sua trajetória pôde proporcionar, garante-lhe o lugar eterno de representante dos pobres. Poupam-se aqueles que deslizaram pelo caminho com palavras torpes e juízos discriminatórios, mas que o fizeram em nome de um resgate dos oprimidos ou por simples reação aos ataques dos que não partilham da mesma fé e não querem ser convertidos. Desdenham-se, sem drama de consciência, as evidências desmoralizantes, afinal, o que são estas diante de uma palavra dada, uma promessa ainda a se cumprir?    

E o líder descomposto eleva-se requentando um discurso de que sua trajetória individual de ascensão deve apagar quaisquer pecados, posto que simbolizaria a redenção dos excluídos. Os incrédulos que insistem em ver a persistência de uma estrutura política deletéria, reforçada e elevada ao extremo graças à troca dos atores principais de outrora por inflamados líderes de grupos que se autorrotulam líderes dos simples, recebem o desconfortável rótulo de 'inimigos do povo'.  No rol desses inimigos, entram empresários, ruralistas, economistas, jornalistas, profissionais especializados e até letrados, pois estar em alguma posição prestigiada, mesmo que seja por mérito próprio, dedicação extremada ou até talento, já é por si motivo de suspeita em terras onde nem todos tiveram as mesmas oportunidades. E o líder, que até teve tempo para tentar levar mais gente para o patamar dos privilegiados com cultura, sucesso e, por que não dizer, riquezas - que não são em si pecado -, preferiu uniformizá-los e armá-los com bandeiras, palavras de ordem, estado de alerta constante para evitar assédios ao poder por parte dos inimigos da fé. Lutas sociais legítimas tornaram-se partidarizadas. Movimentos populares que nasceram para reverter um estado de coisas passaram a existir em prol de se manterem a si próprios e defenderem os alimentadores de uma luta permanente, apesar de estarem no poder há tempos.

Quando organizados, com estratégias bem delimitadas previamente, exibindo vestimentas de cores vibrantes e bandeiras costuradas com símbolos de luta para não serem confundidos com os infieis, eles parecem em grande número - ajudados pelas tomadas seletivas das câmaras e pelos grupos ruidosos das redes sociais - e surpreendem por sua bravura em exibir panfletos que parecem afrontar qualquer bom senso. Convictos, porém, da verdade da sua fé, seguem intrépidos seu líder para onde quer que ele vá, malgrado os caminhos arriscados e as ameaças de ataque das forças do mal. Se o abismo os espera, o sacrifício não será em vão, pois os que tiveram a revelação sabem que mais vale morrer por uma causa absoluta do que enfrentar o comezinho da realidade. 

* Susani Silveira Lemos França é professora Livre-Docente em História Medieval da UNESP/Franca

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