Análise: Acidente pode ser desastre político para Lula

Crise aérea coloca gestão federal na berlinda; Serra pode ser beneficiado.

Asdrúbal Figueiró, BBC

18 Julho 2007 | 16h17

O acidente com o Airbus da TAM em São Paulo tem potencial de provocar estragos políticos e de imagem inéditos no governo Lula.Desde o choque do Boeing da Gol com o Legacy que deixou 154 mortos na Amazônia em setembro do ano passado, a crise aérea não saiu das manchetes.Nesses nove meses, houve um quase-acidente aqui, uma greve ali, declarações desastradas de autoridades acolá e muitas filas e atrasos.Até agora, porém, apesar de ter emplacado uma CPI, a oposição parecia não ter conseguido capitalizar e potencializar o desgaste do governo.Uma das acusações mais fortes que a oposição conseguiu produzir foi que Lula empurrava um problema sério com a barriga.Não é um argumento de tanto peso quando o resultado mais visível da suposta inoperância é fila em aeroporto.Quando o resultado são cerca de 200 mortos e o maior acidente da história da aviação aérea do país, a coisa pode mudar.É claro que a investigação sobre as causas do acidente ainda está nos estágios inciais.Mas, mesmo que se prove que as condições da pista de Congonhas tenham pouco a ver com o desastre, o governo vai, no mínimo, ter de ir para a defensiva. Vai ter de se explicar e torcer para que sua versão cole.Se, ao contrário, ficar provado que a pista recém entregue pela estatal federal Infraero não tinha condições ideais e que isso foi crucial, o desgaste pode ser muito mais grave.Vai ser mais fácil para a oposição usar o argumento da crise anunciada e tentar jogar o custo do desastre no colo do governo, e mais difícil para Lula alegar ignorância, como no início da própria crise aérea ou do escâdalo do mensalão.Coincidência ou não, Lula colocou para investigar as obras de recuperação da pista a Polícia Federal que, apesar de se envolver em polêmicas, tem conseguido vender a imagem de um dos órgãos mais eficientes do governo.A medida dá aos aliados de Lula um argumento contra a acusação de inação do governo e, no limite, permite que o presidente associe sua imagem aos investigadores, caso se comprovem problemas com a obra da Infraero.Mas, para além disso, o desastre em Congonhas também coloca no palco outro personagem importante: o governador tucano José Serra, potencial candidato à eleição presidencial de 2010.Nas primeiras horas do acidente, enquanto o presidente se fechava no Palácio com ministros e deixava a tarefa de enfrentar as câmeras para o porta-voz da Presidência, Serra estava na cena do desastre, ao vivo, nas TVs, dizendo que "infelizmente, as chances de sobreviventes" eram quase zero.Por ora, o governador tem evitado declarações políticas mais fortes - até porque talvez o momento não seja o mais conveniente.Mas ele já deu declarações dizendo que o aeroporto deveria ficar fechado durante as investigações, que cobrou "rigorosas", e anunciou inquérito da Polícia Civil.Serra também já se reuniu com familiares das vítimas e não deu nenhum sinal de que deva deixar a cena.É um assunto de repercussão nacional em que, como governador do Estado, Serra pode - até com a justificativa de que deve - tratar. O desgate é todo federal.O potencial político para Serra só não é maior porque os eventuais dividendos do tucano tendem a se concentrar em uma área geográfica (São Paulo/Sul) e social (classe média) onde o PSDB tem menos problemas.E o efeito no eleitorado de Lula - classes mais baixas no Norte e Nordeste - é mais difícil de mensurar.Mas é mais difícil de acreditar que Lula possa se sair da história melhor do que entrou.Também é difícil medir o impacto do acidente na imagem da ministra Marta Suplicy, arqui-rival de Serra na política paulista e paulistana e possível candidata à Presidência em 2010.Mas a combinação da catástrofe no seu reduto eleitoral com o "relaxa e goza" não deve ajudar a petista.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.