Análise: Acordos entre China e Taiwan geram desconfiança

Visita de negociador chinês à ilha provoca protestos de ativistas taiwaneses.

Cindy Sui, BBC

04 Novembro 2008 | 19h54

Os protestos que marcaram a visita a Taiwan do principal negociador chinês para a ilha, Chen Yunlin, indicam que os taiwaneses ainda estão muito desconfiados de seu maior rival histórico. Chen esteve em Taiwan para assinar acordos bilaterais que melhoram as conexões de transporte entre a ilha e o continente e abrem a possibilidade de negócios bilaterais bilionários. Os acordos permitem a troca de mercadorias livre de impostos entre os portos e triplicam, para mais de cem, o número semanal de vôos diretos de passageiros, que atenderão a mais de 20 cidades chinesas - em vez das atuais cinco. Entre os termos do acordo também está um mecanismo que prevê a troca de informações sobre normas de saúde e segurança. O recente escândalo envolvendo leite contaminado na China afetou Taiwan, grande importador de produtos chineses. Três crianças taiwanesas foram infectadas pelo leite contaminado com a substância química melamina. Relações hostis À primeira vista, a visita de Chen Yunlin se concentrou no restabelecimento de laços econômicos, mas muitas pessoas esperam que parcerias nas áreas de comércio e transporte possam ser o fim de uma das maiores áreas de tensão do mundo. "No passado, as relações entre os dois países eram muito hostis", diz Kou Chien-wen, professor na Universidade Nacional de Taipei Chengchi. "Essa visita mostra que as relações estão direcionadas à reconciliação." Ao mesmo tempo, a presença da autoridade chinesa expõe a preocupação de muitos taiwaneses de que a ilha de 23 milhões de habitantes perca sua soberania e autonomia. O principal partido de oposição, o Partido Progressivo Democrático (DPP), organizou uma manifestação em protesto pela visita. Na noite de terça-feira, manifestantes tentaram furar os cordões de isolamento para entrar no hotel onde Chen estava jantando com uma autoridade do governo - atualmente controlado pelo partido Kuomintang. A oposição à passagem do chinês pela ilha e às políticas pró-China do presidente Ma Ying-jeou é grande entre setores da população, principalmente entre aqueles cujos ancestrais migraram para a ilha quando a China ainda era governada por imperadores e têm pouca ligação com o continente. Protestos Duas semanas antes da chegada do negociador chinês, uma grande manifestação contra a unificação reuniu 600 mil pessoas em Taipé, de acordo com o DPP. No início de outubro, o vice de Chen, Zhang Mingqing, foi derrubado por um grupo de ativistas pró-independência durante uma visita privada em Taiwan. Por conta disso, a segurança para a visita de Chen foi reforçada, com a presença de 7 mil policiais nas ruas. Ainda assim, alguns manifestantes conseguiram exibir cartazes com mensagens como: "bandido comunista" e "caia fora". Um grupo pró-independência ainda ofereceu recompensa em dinheiro para quem conseguisse acertá-lo com um ovo. "A principal razão pela qual ele está aqui é para usar meios econômicos para alcançar o maior objetivo da China: a unificação", disse Lin Ching-shui, um morador aposentado de Taipé que participou da manifestação. "É apenas uma isca para fisgar o peixe." Muitos jovens, que se vêem como taiwaneses em vez de chineses, também participaram dos protestos. "Sua vinda para cá não é boa para nós. A China quer apenas que sejamos uma parte dela", disse Hsu Wen-chien, um universitário de 21 anos. "Queremos que o mundo todo saiba que somos um país independente." Soberania O presidente Ma prometeu garantir a soberania de Taiwan e insiste que as negociações não abordarão questões políticas. Ele também prometeu pedir à China que remova seus mais de mil mísseis apontados para a ilha, mas não está claro se a questão será discutida durante a visita de Chen. Pequim ainda vê Taiwan como parte de seu território e ameaçou retomar a ilha à força se ela declarar formalmente sua independência. As relações entre a China e Taiwan melhoraram desde que Ma subiu ao poder, mas a forte oposição às negociações indica que ele pode ter dificuldades na busca por políticas que incluem a abertura da ilha para investimento chinês e eventualmente a assinatura de um acordo de paz. "Estou preocupado que Taiwan seja traída por Ma Ying-jeou", disse o aposentado Lin. Apesar de preocupações do tipo, os dois lados concordaram em realizar conversas regulares, com a próxima rodada de negociações esperada para o ano que vem em Pequim, focada na cooperação econômica e na proteção de investidores taiwaneses na China. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Mais conteúdo sobre:
china taiwan reunificação pequim taipei

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.