Análise: Após 20 anos, influência russa volta à América Latina

Novembro será marcado por visitas de alto escalão e exercício militar no Caribe.

Carlos Chirinos, BBC

11 Novembro 2008 | 14h48

Desde o fim da Guerra Fria, a relação entre a Rússia e a América Latina já não é mais como no passado. Mas agora, 20 anos depois, a influência russa na região volta a aparecer.O fim da União Soviética reduziu muito o espaço conquistado por Moscou nos anos 50 e 60, com o triunfo da Revolução Cubana.Novembro de 2008 poderia ser chamado de mês da Rússia em boa parte da América Latina.Comissões russas de alto escalão visitarão Venezuela, Bolívia, Equador, Cuba, Nicarágua e Argentina. O mês termina com a chegada do presidente Dmitri Medvedev à região.Exercício navalA visita presidencial também coincide com o momento em que a Rússia e a Venezuela começam a fazer manobras militares conjuntas no Mar do Caribe.A estratégia da diplomacia russa na América Latina tem como objetivo relançar as "tradicionais relações" com Cuba e com a Nicarágua "sandinista" e aproveitar os novos governos de esquerda, como os de Bolívia e Paraguai.Esse suposto viés "esquerdista" da renovada presença russa na América Latina é visto por alguns como uma potencial reedição das tensões da Guerra Fria, sobretudo para os que equiparam a Venezuela de Hugo Chávez à Cuba de Fidel Castro.A Venezuela transformou-se no principal inimigo - até agora apenas na retórica - da política americana na região e também se tornou o principal sócio militar dos russos no continente, com compras de US$ 3 bilhões.Mas também tornou-se um sócio importante no campo de energia, com grande volume de negócios entre a Petróleos de Venezuela (PDVSA) e as russas Lukoil e Gazprom.Vocação"A Rússia está seguindo com sua vocação geoestratégica e quando observam uma possibilidade de se afirmar no mundo, eles a usam", disse à BBC o ex-chanceler eslovaco Eduard Kukan.Por sua experiência na Eslováquia, país que passou anos sob a influência da União Soviética, Kukan desconfia do aspecto militar da aliança venezuelana com a Rússia."Estamos vivendo tempos diferentes. É muito difícil sequer sonhar em construir um império ao estilo soviético", afirma. "Para os russos, é muito difícil admitir que não são mais a superpotência dos tempos da União Soviética. Acredito que os líderes russos querem retomar esse posto que tinham no mundo."Para o vice-chanceler russo Sergey Riabkov, que esteve em Caracas no fim de semana, a aliança com a Venezuela é uma relação de negócios "muito importante, mas também muito pragmática"."Não há condicionamentos geopolíticos de nenhum tipo", disse Riabkov à BBC, ao comentar os exercícios navais conjuntos. "Não devemos ver isso com o prisma distorcido dos tempos da Guerra Fria, porque não é esse o caso."EspaçoA Rússia estendeu a Cuba nesta semana uma linha de crédito de US$ 20 milhões, em um gesto amistoso diante da enorme dívida que o país tem com os russos (alguns calculam que a dívida ultrapassa US$ 20 bilhões).Para Daniel Erikson, do centro de estudos Diálogo Interamericano, em Washington, "o negócio é parte da relação mais importante para a Rússia" na região.Erikson avalia que os laços com Moscou "fazem parte da globalização da América Latina, que é muito boa para a região".Mas o pesquisador ressalta que a presença da frota naval russa no Caribe é uma mensagem direta de Moscou para Washington de que, caso o vazio entre o norte e o sul continue aumentando, haverá outros dispostos a ocupar esse espaço econômico e político.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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