ANÁLISE-Após ano tenso, Dilma terá reforma ministerial limitada

A presidente Dilma Rousseff terá que enfrentar alguns dilemas na vindoura reforma do seu ministério, prevista para o início de 2012, como a escolha de auxiliares que melhorem o desempenho administrativo do governo e a acomodação de novos aliados na esplanada.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

10 de novembro de 2011 | 13h00

A reforma no primeiro escalão não será muito abrangente por conta das seis mudanças já feitas por Dilma depois da onda de denúncias de irregularidades e também não devem atingir o núcleo econômico do governo.

Desde a montagem do ministério no final do ano passado, a avaliação de auxiliares diretos da presidente é que haveria mudanças depois de um ano, tempo que em que muitos ministros teriam seu desempenho avaliado. Contudo, as trocas já efetuadas, motivadas em sua maioria por denúncias de corrupção nos ministérios, anteciparam muitos movimentos que Dilma poderia fazer em 2012.

Nessas trocas, os partidos da coalizão mantiveram seus espaços na esplanada e apenas na Defesa a presidente escolheu um petista, Celso Amorim, para o lugar de um peemedebista. Mas neste caso, o antigo titular, o peemedebista Nelson Jobim, não era considerado da cota do partido.

Na Casa Civil (PT), Dilma substituiu Antonio Palocci pela senadora Gleisi Hoffmann; Nos Transportes (PR) saiu o senador Alfredo Nascimento e entrou seu secretário-executivo Paulo Sérgio Passos; na Agricultura (PMDB) Wagner Rossi foi substituído pelo deputado Mendes Ribeiro; no Turismo (PMDB) saiu Pedro Novais e entrou o deputado Gastão Vieira; e no Esporte (PCdoB) o deputado Aldo Rebelo substituiu Orlando Silva.

Agora, com a possibilidade de novas mudanças, alguns aliados temem perder espaço no primeiro escalão, enquanto outros vêem que o momento é propício para ampliar seu poder na esplanada.

No PMDB, por exemplo, há insatisfação desde a montagem do ministério com a perda de pastas importantes em relação à gestão Lula, como as Comunicações e a Saúde. O maior aliado de Dilma no Congresso quer mais cadeiras na esplanada. Hoje, os peemedebistas comandam Agricultura, Turismo, Minas e Energia, Previdência Social e a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Mas esse anseio tem que ser controlado na avaliação do líder da bancada na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). "É um tema delicado. Não queremos que pareça que o partido está pressionando. Não adianta querer mais espaço e brigar com os outros aliados", disse.

Alves acredita que "passados os sobressaltos, ela tem que buscar resultados. Vai pesar isso na decisão dela, porque nesse primeiro ano ela teve muitos problemas", disse.

Além da provável pressão do PMDB para comandar mais ministérios, Dilma também terá que enfrentar a resistência de aliados que não aceitam deixar seu lugar na esplanada. É o caso do PDT, por exemplo, que não abre mão de continuar no Trabalho e de manter o ministro Carlos Lupi no posto.

Antes mesmo das denúncias de irregularidades no ministério do pedetista, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, já dizia que caso Lupi saísse na reforma ministerial o partido não indicaria ninguém e deixaria a base aliada. O líder da legenda na Câmara, Giovanni Queiroz (PA), repetiu a declaração na terça-feira

SEM ENXUGAMENTO

Já o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, um dos auxiliares mais influentes na gestão Dilma, acredita que a reforma será pontual, atingindo poucos cargos além daqueles cujos colegas deixarão o governo para disputar as eleições municipais, caso do ministro da Educação, Fernando Haddad, que deve disputar a prefeitura de São Paulo, e, possivelmente, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes, que pode concorrer em Vitória.

Apesar dessa avaliação de Carvalho, tem sido comentada dentro do governo por outros ministros a possibilidade da presidente fazer um enxugamento no número de ministérios. Essa hipótese considera a fusão das secretarias de Mulheres, de Igualdade Racial e de Direitos Humanos em uma única pasta.

Carvalho também rejeita essa mudança, mas salientou que ainda não teve uma conversa específica sobre a reforma com a presidente.

"Juntar ministérios não existe. Eles são conquistas dos movimentos sociais. Não há nenhuma perspectiva de fazer enxugamento de ministérios. É pura especulação", disse Carvalho à Reuters.

Apesar da resistência de Carvalho, essa seria uma boa mudança na avaliação de analistas ouvidos pela Reuters.

Para o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília, por exemplo, "se ela fizer isso seria uma grande reforma. Poderia reduzir o número de ministérios para 30", disse. Hoje, são 38 ministros.

O professor Roberto Romano, da Unicamp, concorda e argumenta que há uma "banalização" de ministérios, que muitas "vezes se sobrepõem".

"São ministérios que não têm orçamento, não têm estrutura e os ministros não conseguem falar com a presidente", resumiu.

Um assessor do Palácio do Planalto, que falou sob a condição de anonimato, disse que mesmo a junção de algumas pastas não representaria uma grande mudança de rumos do governo.

Essa fonte argumenta que os núcleos de poder no governo Dilma estão muito bem definidos e isso não entrará em questão com as trocas no primeiro escalão. Ele explica que o núcleo econômico comandado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, não sofrerá mudanças e nem o núcleo mais próximo da presidente, dos ministros com gabinetes no Palácio do Planalto, será trocado.

ALIADOS

Para outra fonte do governo, Dilma pode usar a reforma para resolver alguns desequilíbrios da coalizão. Segundo esse assessor, que pediu para não ter seu nome revelado, há pelo menos um fato novo que será levado em conta por Dilma na reforma, que é a criação do PSD, que tem a terceira maior bancada da Câmara, com mais de 50 deputados.

O partido fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, reduziu ainda mais as forças da oposição no Congresso, sua cúpula foi recebida por Dilma após obter o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os parlamentares têm apoiado propostas do Executivo.

Esses movimentos indicam que o PSD pode ocupar um assento na esplanada e na avaliação de Fleischer ainda ajudam a presidente a evitar defecções de partidos menores e que comandam algum ministério.

"A adesão do PSD pode ser importante para dizer para o PDT revoltoso que se eles querem abandonar o governo, tudo bem. O PR, por exemplo, ensaiou deixar o governo e já voltou", explica o analista.

O ingresso oficial do PSD no governo deve começar ao menos no Congresso, onde o líder Cândido Vaccarezza (PT-SP), pretende incluir entre seus dez vice-líderes algum deputado da legenda.

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