ANÁLISE-Belo Horizonte desponta entre disputas municipais de olho em 2014

A eleição municipal deste ano em Belo Horizonte deve trazer consequências importantes para a eleição presidencial de 2014, ao opor dois personagens que, considerando o cenário atual, serão os principais adversários na disputa presidencial de daqui a dois anos: a presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves (PSDB-MG).

EDUARDO SIMÕES E JEFERSON RIBEIRO, Reuters

17 de agosto de 2012 | 16h24

A avaliação feita por analistas ouvidos pela Reuters encontra eco nas movimentações tanto da presidente quanto do senador mineiro, dando fortes contornos nacionais à disputa entre os candidatos Patrus Ananias (PT), apoiado por Dilma, e Márcio Lacerda (PSB), postulante de Aécio.

Uma fonte do Palácio do Planalto disse à Reuters que Dilma não pretende se envolver logo nas disputas, mas ressaltou que "em BH é diferente".

Aécio também promete engajar-se fortemente na campanha de Belo Horizonte, pela reeleição de Lacerda, que fez parte de seu secretariado quando governou Minas Gerais.

Para o analista político da Tendências Consultoria Rafael Cortez, a eleição em Belo Horizonte "vai ter uma implicação enorme, não tanto para o resultado da eleição de 2014, mas certamente pelas estratégias que serão adotadas por governo e oposição até lá". Isso porque tanto Aécio quanto Dilma decidiram colocar seu peso na disputa na capital mineira para fortalecer sua posição para o pleito presidencial.

Lacerda foi eleito para comandar a capital mineira em 2008 numa situação inusitada: teve o apoio tanto do PT, do ex-prefeito Fernando Pimentel, quanto do PSDB, de Aécio. A aliança foi rompida neste ano, e o PT, que tinha o vice de Lacerda, decidiu lançar candidato próprio.

Petistas e tucanos trocam acusações sobre a responsabilidade pelo fim da aliança, enquanto a cúpula nacional do PSB, de Lacerda, trabalha para pôr panos quentes na ruptura com o PT em Belo Horizonte, embora veja com naturalidade a disputa entre os dois partidos em outras cidades, como Recife e Fortaleza.

Já analistas veem na ruptura na aliança de 2008 um movimento de Aécio para consolidar seu grupo político na capital mineira visando alçar voo nacional de olho em 2014, e também uma estratégia do PT, e de Dilma, de fazer frente à movimentação do ex-governador, enfraquecendo sua posição para daqui a dois anos.

"A candidatura de Márcio Lacerda (em 2008) serviu para fortalecer o PSDB na cidade de Belo Horizonte, partido que não tinha aqui nenhuma visibilidade até então", disse a cientista política da Universidade Federal de Minas Gerais Helcimara de Souza Telles.

"Agora, tendo em vista que o Aécio ganhou asas, ganhou autonomia, e se coloca mais fortemente para as eleições presidenciais, o PT, através da presidente inclusive, percebeu o erro estratégico que cometeu em 2008 e resolveu lançar um candidato próprio."

Fontes políticas ouvidas pela Reuters apontam, inclusive, que a reeleição de Lacerda na capital poderia alçá-lo a uma candidatura para o governo mineiro em 2014.

Ter um membro de seu grupo político como candidato forte ao governo de Minas, dizem analistas, colocaria uma candidatura de Aécio à Presidência em boa posição no segundo Estado com mais eleitores do país.

O atual governador Antonio Anastasia (PSDB) não pode disputar o que seria uma segunda reeleição, pois era vice de Aécio e assumiu o governo em 2010 quando o tucano lançou-se candidato ao Senado.

O próprio Aécio, apesar de insistir na inexistência da relação entre a eleição municipal e a disputa presidencial em 2014, reconhece a importância de ter um aliado no comando da capital mineira, terra natal dele e de Dilma.

"Se tivermos um aliado bem avaliado em BH é bom", disse à Reuters. "Eu não acho que eleição municipal tem lógica direta (com disputa nacional)", insistiu.

JOGO DE XADREZ

Mesmo sem levar em conta o tabuleiro político de 2014, políticos aliados de Dilma acreditam que sua participação ativa e direta na construção da candidatura de Patrus pode corroer parte do seu capital político em caso de derrota do petista.

"A eleição de BH tem relação direta com a Dilma e terá consequências diretas. Vencendo ela será vitoriosa. Perdendo, sai derrotada", disse um petista que participou das articulações capitaneadas por Dilma. O resultado "é indissociável" da presidente, segundo essa fonte.

Um ministro do governo é um pouco mais brando na avaliação e acredita que o PT obrigou a presidente a participar tão ativamente em Minas. "Se a postura (dela) for equilibrada, uma derrota tem efeito minimizado", avaliou o ministro pedindo anonimato.

O risco de desgaste político é o que faz Dilma avaliar meticulosamente em quais disputas municipais se envolverá e de que forma. A presidente só deve "fazer campanha" onde sua participação for decisiva para que um aliado chegue ao segundo turno ou consiga a vitória.

Analistas, por outro lado, não veem consquências diretas para Dilma. "As pessoas conseguem separar o candidato a prefeito do candidato a presidente", disse Helcimara, da UFMG.

"ATENÇÃO NACIONAL"

Apesar de reconhecerem a importância nacional do pleito em Belo Horizonte, tanto analistas quanto integrantes da cena política concordam que a nacionalização na capital mineira não ofusca o caráter nacional já tradicional da eleição em São Paulo.

"São Paulo sempre é uma eleição que chama a atenção nacional", disse o cientista político da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer.

Na capital paulista, o candidato do PSDB derrotado à Presidência em 2010 José Serra tenta voltar à prefeitura e tem, entre seus adversários, Fernando Haddad (PT), que foi ministro da Educação de Luiz Inácio Lula da Silva e da própria Dilma.

Ainda pouco conhecido do eleitorado, apesar do forte apoio do ex-presidente Lula, Haddad patina nas pesquisas, a ponto de o principal adversário de Serra, neste momento, ser o repórter Celso Russomanno, bastante conhecido do grande público mas candidato do pequeno PRB.

Em São Paulo, outro partido grande, o PMDB, também enfrenta dificuldades com seu candidato, o deputado federal Gabriel Chalita.

Mas como a campanha eleitoral só ganha ritmo mesmo com o início do horário eleitoral gratuito, há bastante espaço para mudanças na disputa nas próximas semanas.

E com vários candidatos com potencial de crescimento, a eleição em São Paulo tende a caminhar para ser definida num segundo turno, ao contrário de Belo Horizonte, onde Lacerda e Patrus são os únicos candidatos fortes.

(Reportagem adicional de Ana Flor, em Brasília)

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