ANÁLISE- Commodities emparedam Brasil entre inflação e comércio

Contrário à idéia sinalizada pela França de controle do mercado de commodities na reunião do G20, o Brasil se coloca no paradoxo de defender seu principal item da pauta de exportações, ao mesmo tempo em que trava luta contra a inflação por causa das matérias-primas.

NATHÁLIA FERREIRA E ROBERTO SAMORA, REUTERS

18 de fevereiro de 2011 | 13h46

Representante do Brasil no encontro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou-se enfático opositor à tese do presidente francês Nicolas Sarkozy de regras para conter a volatilidade dos preços de commodities, pelo risco de distúrbios alimentares e crescimento mundial mais fraco.

"Não dá pra botar a culpa nos preços dos alimentos, como alguns países fazem", repetiu Mantega a empresários na quarta-feira, antes de embarcar para a reunião do G20, que começa nesta sexta-feira, ao mesmo tempo em que tentava convencê-los da eficácia das medidas tomadas pelo governo para debelar a inflação ascendente.

Em dezembro, o BC anunciou medidas para tentar desacelerar o crédito. No mês passado, aumentou a Selic em 0,5 ponto, para 11,25 por cento ao ano. E na semana passada, o governo anunciou um corte recorde de 50 bilhões de reais no Orçamento de 2011.

"É a dicotomia que o governo tem que enfrentar", avaliou Jason Vieira, analista internacional da corretora Cruzeiro do Sul. "O Brasil defende o preço alto das commodities porque isso ajuda pelo viés exportador de commodities do Brasil, mas ao mesmo tempo sofre com o processo inflacionário que é cruel".

No ano passado, as exportações de commodities agrícolas do Brasil atingiram o recorde de 76,4 bilhões de dólares --ou 38 por cento do total que o país exportou--, muito em função dos bons preços de seus produtos no mercado internacional.

Os preços ajudaram a impulsionar as vendas externas do agronegócio --um setor fundamental para a balança comercial do país. Mas a alta das commodities, segundo especialistas, também é fundamental para a nação continuar elevando a sua produção e gerando excedentes exportáveis, na medida em que são um estímulo para agricultores produzirem mais, especialmente em países como o Brasil, que subsidia pouco sua agricultura se comparado com países desenvolvidos como a França.

"Em síntese, os preços altos precisam ocorrer para induzir as mudanças necessárias. Representam um custo para a sociedade em geral (Brasil e mundo) no curto prazo, mas as medidas corretivas (crescimento mais lento decorrente do combate à inflação, por exemplo) assegurarão mais crescimento sustentável no futuro", comentou o professor Geraldo Sant'ana de Camargo Barros, da Esalq/USP.

A opinião é partilhada pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, hoje coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, de que os preços altos inexoravelmente elevarão a oferta em algum momento, e são necessários para que o mundo possa atender a crescente demanda das nações emergentes.

Nesse sentido, continuou o professor da USP, "não há medidas corretivas dirigidas ao setor específico que sejam eficazes a curto prazo", como pretende o presidente da França.

Para Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Credit Agrícole Brasil, a ideia de tentar limitar as altas nos preços das commodities não tem como ser bem sucedida, uma vez que há uma combinação de fatores que levam ao aumento dos valores e que não serão revertidos tão cedo.

"O primeiro é o excesso de liquidez que os BCs dos países desenvolvidos estão colocando no mercado", disse o economista. "O outro é mais estrutural, há uma percepção de que o crescimento global vai continuar sendo liderado por emergentes... e é sabido que os emergentes demandam mais commodities quando crescem."

INFLAÇÃO

A situação ganha ainda mais corpo quando economistas consideram um cenário em que a inflação deve seguir pressionada por mais tempo do que se calculava, em especial por causa de um cenário mais longo do que se previa de alta das commodities.

Em relatório, o Itaú Unibanco ressalvou que o IPCA, que serve de referência para a meta de inflação do BC, tem captado mais que apenas efeitos sazonais. "Todas as medidas de núcleo mostraram maior variação neste resultado, com alta da variação em 12 meses da média dos núcleos novos de 5,55 por cento em dezembro de 2010 para 5,76 por cento em janeiro de 2011".

"Dada a dinâmica dos preços de alimentos no Brasil, a inflação de alimentos vai no final das contas ser um indicador oportuno de inflação de demanda", afirmou o RBS, em relatório.

Se o cenário mais pessimista se confirmar, o caminho para o combate à inflação terá que vir da política monetária, dizem economistas. O corte no Orçamento e o reajuste do salário mínimo para 545 reais como queria o governo não foram bastante para o mercado mudar a projeção para a alta do juro em 2011.

Especialistas alertam que há um limite para a alta da Selic e, por isso, pode-se esperar mais medidas macroprudenciais. "O Banco Central sabe que puxar os juros complica a situação no câmbio, e o governo claramente está desconfortável com o câmbio", afirmou Caramaschi.

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