UNIVERSAL CHANNEL/DIVULGAÇÃO
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Análise: Diagnóstico raro é vaidade médica e também de roteirista

Médicos que trabalham para planos privados ou particulares não costumam fazer visitas ao domicílio, então por que até hoje as novelas insistem em mostrar isso?

Luisa Portugal*, O Estado de S. Paulo

25 Dezembro 2016 | 06h00

Sempre ouvimos dizer que para se fazer uma novela ou um seriado é necessária muita pesquisa para a construção dos personagens, principalmente a chamada “pesquisa de campo”. E, quando esses personagens são médicos,  é importante questionar: onde essas pesquisas são realizadas? Será que a maioria dos atores realmente passa noites em um plantão? 

As mídias, em geral, focam muito nos médicos que trabalham em ambiente hospitalar e em diagnósticos raros e difíceis. Uma frase muito bacana do seriado Unidade Básica logo no primeiro episódio é: diagnóstico raro é pura vaidade médica. E essa é a verdade, esses diagnósticos devem representar 0,1% da nossa realidade, então esses diagnósticos não são apenas vaidade médica, mas também vaidade de roteirista.

Outro ponto importante é que os atores estão sempre impecáveis e bonitos, como se tivessem acabado de sair de uma salão de beleza, mas não mostram a sobrecarga de trabalho, as olheiras após um plantão cansativo e a energia que nos é sugada na jornada de trabalho.

Assim como na vida real, temos bons e maus exemplos de profissionais e isso é muito importante de ser abordado, porque o bom profissional nos inspira e é um espelho de como gostaríamos de ser, enquanto o mau faz o efeito contrário; discordo apenas da abordagem do médico que é desumano e trata mal as pessoas, mas que todos querem ser atendidos por ele porque sabem que ele é muito bom de conteúdo.

Essa ideia fortalece a valorização de profissionais não humanizados e passa uma mensagem de que devemos aceitar determinados tipos de tratamentos em prol de um diagnóstico. Resultado que nunca envolve os problemas sociais, econômicos, culturais e pessoais do paciente.

Apesar da fala e do linguajar médico ficarem bem representados, os hospitais mostrados são sempre perfeitos, com cirurgias avançadas e de alta tecnologia, o que é a nossa minoria. Quase nunca se vê falta de materiais, as dificuldades enfrentadas no dia a dia por falta de leitos e superlotação, os pacientes complicados, os médicos que batem ponto com dedo de silicone e os plantões que nos afastam de estar com os familiares e amigos.

Quase nunca se vê Unidades Básicas de Saúde, até parece que elas não existiam em Paraisópolis.  Algo curioso também é que os ricos das novelas, sempre que passam mal, recebem médicos em domicílio. Essa realidade não existe.  Quem faz visita domiciliar são os médicos que trabalham na atenção básica, no SUS.

Médicos que trabalham para planos privados ou particular não costumam fazer visitas ao domicílio, então por que até hoje as novelas insistem em mostrar isso? Importante modificarmos a forma de abordar a saúde nas nossas mídias porque além de tratar de forma superficial esses temas, todas elas reforçam o modelo medicocêntrico e pouco demonstram o importante trabalho multiprofissional e em equipe. Onde está a equipe de enfermagem? Os técnicos? Os agentes de saúde? O Samu?

* É MÉDICA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE 

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