Análise: Diferenças sutis marcam nova era na relação EUA-Grã-Bretanha

Primeiro encontro de Brown e Bush mostra que relação entre países pode estar mudando.

Paul Reynolds, BBC

31 Julho 2007 | 19h21

Para aqueles que queriam que Gordon Brown fizesse um claro rompimento em relação aos anos de Tony Blair, o primeiro encontro do novo primeiro-ministro britânico com o presidente americano, George W. Bush, pode ter sido decepcionante. Ele não fez nenhum rompimento. Ele não quis fazê-lo. No entanto, há alguns sinais sutis que diferenciam a relação entre os dois do intenso contato dos anos Bush-Blair. Brown tentou combinar seu forte compromisso com Bush na luta contra a al-Qaeda com uma ênfase em políticas mais leves em um discurso na ONU - pedindo que as metas de redução de pobreza sejam cumpridas com uma "coalizão pela justiça". A sua visita à ONU coincidiu com um positivo avanço na questão de Darfur, através da resolução aprovada pelo Conselho de Segurança que finalmente enviará uma missão de paz da ONU à região. Em Camp David, para começar, houve um novo estilo. Bush e Blair apareceram no seu primeiro encontro em Camp David usando roupas informais (Blair usava algo que o então embaixador britânico Christopher Meyer chamou de "jeans um pouco justos"). Bush e Brown usaram ternos e gravatas. Tudo será um pouco mais formal agora. E também houve novas palavras. Gordon Brown chamou o encontro de "direto e franco", geralmente expressões usadas para caracterizar reuniões tensas. Talvez ele não quisesse dizer isso, mas o britânico evitou fazer comentários pessoais, ao contrário de Bush, que tentou fazer piada sobre Brown não ser o escocês "austero ou constrangido" que ele esperava. As palavras ilustraram sutilmente não exatamente diferenças de políticas, mas sim a prioridade e a abordagem própria de cada um para suas políticas. A linguagem de Bush era, como sempre, cheia de frases como "a guerra contra extremistas e radicais" no Iraque e pelo mundo. O premiê Brown deliberadamente descreveu o terrorismo como um "crime", em um esforço talvez de desmistificá-lo e facilitar a oposição ao terrorismo em todo o mundo, inclusive entre os muçulmanos. E ele também tentou traçar um cenário mais complexo do Iraque ao diferenciar as facções - a divisão entre sunitas e xiitas, o "envolvimento do Irã" e o "grande número de terroristas da al-Qaeda". No entanto, como Bush disse, ambos concordaram que isso é "comparável à Guerra Fria". Gordon Brown também, e talvez de forma mais destacada, lembrou que uma sugestão aos britânicos no Iraque para que desempenhem um papel de "supervisão" será feita "sobre o conselho militares aos nossos comandantes no campo de batalha". Ele não deixou claro se esses comandantes serão britânicos apenas. Ele chamou o Afeganistão de "linha de frente contra o terrorismo", uma honra que Bush geralmente confere ao Iraque. O premiê britânico também citou algumas vezes o tema da "mudança climática". Bush não o fez. O principal sobre Iraque e Afeganistão é que essas são questões que Brown herdou. A relação entre Estados Unidos e Grã-Bretanha ainda não foi testada nas demais questões. A mais difícil delas será com o Irã. Mais sanções devem ser discutidas nas Nações Unidas em setembro, mas se não houver progresso na suspensão do programa iraniano de enriquecimento de urânio, pode haver pressão do governo Bush por mais ações militares antes do presidente deixar o cargo em janeiro de 2009. Este será de fato um teste para mostrar se Estados Unidos e Grã-Bretanha ficarão juntos. Nunca se deve esquecer na relação entre britânicos e americanos a importância das armas nucleares. Brown apoiou a decisão recente do governo britânico de substituir o sistema nuclear Trident por novos mísseis americanos. A importância destes laços não pode ser subestimada e eles explicam em parte porque pode ser essencial para primeiros-ministros britânicos se colocarem mais ou menos ao lado dos presidentes americanos. Até mesmo o premiê trabalhista no auge da guerra do Vietnã, Harold Wilson, recusou-se a criticar a política americana, apesar de não enviar tropas para o conflito. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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