ANÁLISE-Focando qualidade, Brasil comprará mais trigo em 2011/12

Além de contar com colheita de trigo menor em 2011/12, moinhos do Brasil avaliam que parte da nova safra tem vindo com problemas de qualidade, o que deverá elevar a necessidade de importação do país, um dos maiores compradores globais do cereal.

ROBERTO SAMORA, REUTERS

11 de outubro de 2011 | 17h34

Segundo três representantes de indústrias de trigo, a qualidade é uma preocupação para a colheita que já supera 60 por cento do total estimado no Paraná, o maior produtor brasileiro, especialmente por conta das geadas que atingiram o Estado. No Rio Grande do Sul, 2o produtor nacional, agricultores apenas começaram a colher.

A atual safra brasileira está oficialmente estimada em 5,1 milhões de toneladas --contra 5,9 milhões de toneladas em 2010/11 (agosto/julho)--, e parte do volume esperado terá baixa qualidade, segundo a indústria.

"O que nos preocupa mais é a qualidade, fizemos um mapeamento significativo de lotes no oeste e norte do Paraná, e a nossa conclusão não é muito animadora não. Temos visto trigo de qualidade muito aquém do desejável, principalmente em termos de falling number e W (força de glúten)", afirmou à Reuters o presidente do Moinho Pacífico, Lawrence Pih.

Segundo ele, tais características citadas são importantes em um trigo para a produção de farinha para panificação, que responde por 60 por cento do total consumido no país.

"A preocupação com a qualidade do trigo deixa a gente de cabelo em pé, a gente não acredita que terá mais do que 1 milhão de toneladas de trigo de boa qualidade no Paraná", disse Pih, dono de um dos maiores moinhos do país.

Esse volume avaliado pelo empresário representa pouco menos da metade do que o Estado prevê colher.

Mas produtores, embora não estimem o volume da produção com qualidade inferior, dizem que ele "é muito menor do que isso", nas palavras do gerente técnico e econômico da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), Flávio Turra.

"Neste ano especificamente, tivemos geada, o que afetou o trigo colhido mais cedo. Se procurar trigo de baixa qualidade vai achar, mas não é nessa expressão", disse Turra, considerando que a avaliação da indústria faz parte de uma estratégia de compra.

IMPORTAÇÃO MAIOR

Considerando quebra de qualidade e de safra, Pih avalia que as importações nacionais em 11/12 ficariam em 6,3 milhões de toneladas, contra 5,7 milhões na temporada passada e ante 5,9 milhões de toneladas do que o estima o governo.

"Aumenta no mínimo meio milhão de toneladas na importação", disse Pih, acrescentando que esse crescimento nas compras brasileiras também deverá ser registrado para atender um aumento de pelo menos 200 mil toneladas na demanda, em meio a uma melhora na renda da população.

Segundo as fontes da indústria, esse aumento na importação deverá ser quase que totalmente abastecido pelo trigo produzido no Mercosul, onde o Brasil compra isento de taxas.

Se a importação crescerá, a exportação cairá.

O trigo cuja qualidade não é considerada adequada pela indústria para a produção de farinha para panificação tem sido exportado pelo Brasil, que registrou um recorde de vendas externas em 10/11, de 2,5 milhões de toneladas.

"Temos uma preocupação muito grande que é a qualidade. Por que exportamos tanto no ano passado? Por falta de qualidade", disse Antenor Barros Leal, diretor da Moinhos Cruzeiro do Sul e vice-presidente da Abitrigo, a associação da indústria.

Segundo ele, com as geadas e a escolha inadequada de variedades de sementes, é provável que o Brasil exporte novamente, situação que também acaba reforçando a necessidade de uma maior importação. "Vai precisar importar o volume para atender o que a safra vai cair, até mais um pouco", declarou, lembrando que os estoques são pequenos.

Um diretor de compras de um importante grupo de moagem de trigo do Brasil, que prefere não ser identificado, disse que a exportação este ano não será tão forte quanto no ano passado, porque a Rússia, com uma safra maior, voltou para mercados para os quais o Brasil exportou em 2010/11.

E, além disso, com o preço do milho em patamares elevados, o trigo de baixa qualidade do Brasil poderá ser destinado para ração, em um volume estimado pelo mercado em algo próximo de 800 mil toneladas, disse a fonte.

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