ANÁLISE-Momento não é bom para Vale adquirir rivais

Os movimentos para formação de joint-ventures e fusões no setor de mineração nas últimas semanas colocaram novamente a Vale na berlinda do mercado como possível compradora, mas uma fonte da empresa descartou qualquer ação desse tipo no momento e analistas disseram que tal ação seria um 'tiro no pé'.

DENISE LUNA, REUTERS

23 Junho 2009 | 15h38

Em meio a tensas negociações sobre preços para o minério de ferro em 2009 com o seu principal mercado, a China, a Vale, segundo a fonte da companhia ouvida pela Reuters, só quer no momento resolver essa questão e descarta qualquer compra no curto prazo.

"Quem apostar nisso vai se dar muito mal, não é o momento para comprar, estamos apenas rezando para as coisas melhorarem, esperando um sinal de melhora no mercado", disse a fonte que pediu para não ser identificada.

A empresa quer repassar para a China a queda de 28 a 44 por cento para o minério de ferro em 2009, acordo fechado com Japão e Coreia do Sul, enquanto siderúrgicas chinesas pretendem um desconto maior.

A Vale fracassou no ano passado em uma tentativa de comprar a anglo-suiça Xstrata, que na semana passada fez oferta para uma fusão em partes iguais com a sul-africana Anglo American.

Analistas do banco japonês de investimento Nomura disseram esta semana ver mais mérito na combinação da Vale com a Xstrata do que da Vale com a Anglo, outro possível alvo de cobiça, na avaliação deles, depois que a mineradora da África do Sul rejeitou a oferta de fusão com a Xstrata.

Para analistas brasileiros ouvidos pela Reuters, no entanto, a posição da Vale será mais conservadora e possíveis aquisições dificilmente seriam voltadas para suas rivais de grande porte.

"Fica difícil para a Vale, apesar dela ter um bom valor de caixa, comprar alguém grande assim. Acho que vai pintar alguma coisa sim, mas não no porte de Anglo e Xstrata, pode ser uma coisa menor", avaliou o analista Pedro Galdi, da SLW Corretora.

Ele explicou que apesar do valor de mercado da Xstrata ter despencado dos 70 bilhões de dólares da época da oferta da Vale em 2008 para cerca de 30 bilhões de dólares atualmente, "o cenário era outro e a visão conservadora da Vale não deve levar para esse caminho no curto prazo", explicou.

"Se ela (Vale) tivesse comprado a Xstrata lá atrás, a esse valor, estaria com problemas seríssimos", observou o analista, que considera no entanto que a mineradora anglo-suiça tem melhor perfil para a Vale do que a Anglo, compra sugerida como melhor opção para a mineradora brasileira pelo banco de investimento Liberum Capital.

Segundo Galdi, a Xstrata é mais interessante para a Vale por complementar melhor as operações da empresa, principalmente no cobre, responsável por 45 por cento da receita da Xstrata, enquanto a Anglo tem apenas 13 por cento.

Para o analista do BB Investimento, Antonio Ruiz, não existe risco da Vale fazer um grande movimento agora, mesmo que a Xstrata seja o alvo.

"Ela já demonstrou interesse de fazer isso um tempo atrás, mas não significa que ela poderia voltar a partir para cima da Xstrata", afirmou o analista.

Segundo Rodney Otero Melhados, da corretora Planner, a Vale está mais focada no momento em crescimento orgânico e no seu principal mercado, a China.

"Apesar de ter dinheiro em caixa, não acredito que a Vale vai fazer movimentos nesse momento, porque o mercado está muito indefinido", explicou.

"Devem estar aguardando uma visão mais consistente do mercado para fazer qualquer movimento, não acho que ela vai se aproveitar dessa situação da Xstrata", disse o analista.

Segundo Rodney, a oferta da Xstrata por uma fusão em partes iguais com a Anglo American demonstra a fragilidade da companhia, que estaria buscando se fortalecer para enfrentar a crise e o ambiente cada vez mais competitivo da indústria de mineração.

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