ANÁLISE-Na economia, Ryan está mais para Reagan que para Tea Party

Quando Cesar Conda era o chefe de gabinete republicano da Comissão de Pequenas Empresas do Senado norte-americano, em 1991, ele costumava ser importunado por questões de teoria econômica de um estagiário de 21 anos chamado Paul Ryan.

NICK CAREY, Reuters

21 de agosto de 2012 | 20h09

Ryan, hoje pré-candidato a vice-presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, "trabalhava na sala de correspondência e constantemente enfiava a cabeça no meu escritório para fazer perguntas sobre a economia da oferta", disse Conda. "Eu tinha muito trabalho a fazer, então lhe dei um par de livros para mantê-lo entretido."

Um desses livros era "The Way the World Works" (1978), de Jude Wanniski, que Conda disse ter sido "a Bíblia" de uma reforma tributária de 1981 que baixou de 70 para 50 por cento a alíquota máxima do imposto de renda.

O outro livro era "Wealth and Poverty" (1981), de George Gilder, que Conda disse ter guiado o governo de Ronald Reagan nas suas políticas de corte de impostos, redução das regulamentações e contenção do papel do governo.

Ryan logo devolveu o livro de Wanniski, mas Conda só conseguiria pegar "Wealth and Poverty" de volta em 2008, quando o viu no gabinete de Ryan, a essa altura um deputado em quinto mandato e líder republicano na Comissão de Orçamento da Câmara.

"As margens estavam cheias de anotações", comentou Conda, assessor econômico do pré-candidato presidencial republicano Mitt Romney em 2008. Foi Conda quem apresentou Ryan a Romney, em 2007.

"Logo eles estavam falando sobre reforma dos direitos adquiridos e imposto de renda marginal", disse ele. "Depois, Romney me disse: 'Eu gosto dele; ele é muito afiado'."

Quem conhece Ryan desde o começo dos anos 1990 descreve um jovem com ideias claras sobre sua filosofia política e econômica. Ele tem uma firme formação baseada na teoria da economia da oferta.

Adversários democratas dizem que o austero plano orçamentário de Ryan, que iria afetar programas sociais voltados para os pobres, como cupons alimentícios e o seguro de saúde Medicaid, é intransigentemente cruel e se baseia na ideologia de cortes tributários e desregulamentação que já vigoraram na época do presidente George W. Bush e, segundo seus opositores, causaram os atuais problemas econômicos dos Estados Unidos.

ECONOMIA DA OFERTA

Mas Ryan e os republicanos rejeitam essa descrição do orçamento e do seu autor. Seus aliados dizem que, embora Ryan esteja comprometido com a economia da oferta, ele é capaz de concessões em questões econômicas.

Isso tornaria Ryan mais próximo de Reagan do que dos atuais radicais republicanos do movimento Tea Party, que consideram Reagan como um ícone conservador, mas que em geral rejeitam a propensão daquele presidente a fazer concessões aos democratas.

Alguns aliados se lembram de conversas com Ryan antes de o Congresso votar em 2008 a criação do Programa de Alívio para Bens Conturbados (Tarp, na sigla em inglês), um polêmico resgate bancário que custou mais de 400 bilhões de dólares aos contribuintes. Ryan enxergou além da sua oposição ao Tarp, porque percebeu que a alternativa seria submeter o país a uma depressão econômica.

"Paul é um guerreiro ávido e feliz no campo de batalha das ideias", disse Vin Weber, ex-parlamentar que trabalhou com Ryan na hoje extinta entidade conservadora Empower America. "Ele tem crenças fortes, mas é guiado pelos dados. Paul sabia que sem o Tarp em 2008 iríamos descambar para mais uma Grande Depressão, e ainda acho que ele fez a coisa certa ao votar a favor."

Durante um discurso de inauguração do período letivo que proferiu em 2009 na Universidade Miami, em Oxford (Ohio), onde ele se formou em 1992, Ryan disse ter tido uma época "difícil" no colégio depois da morte do seu pai.

Ele também citou um professor de economia, Rich Hart.

"Ele me ofereceu muito mais do que uma formação em economia", disse Ryan. "Ele me forneceu a busca por uma visão ... para melhorar a economia da nossa nação."

Hart teve longas conversas com Ryan, e lhe entregou um exemplar de "Capitalismo e Liberdade", do economista liberal Milton Friedman.

O professor contou que costumava passar aos alunos o romance "Atlas Shrugged", de Ayn Rand, sobre uma rebelião cidadã contra os impostos elevados e as regras governamentais. Ryan admitiu que o livro lhe influenciou muito. Segundo Hart, Ryan já havia lido o livro quando foi passado em classe.

"Quando Paul Ryan chegou a Miami, ele já tinha uma filosofia econômica e política", disse Hart. "Ele passava o tempo aqui refinando e fortalecendo-a."

Quando Ryan esteve em Oxford, em 2009, Hart diz que tentou convencer seu ex-aluno a disputar a Presidência. Ele se lembra de que Ryan respondeu que não, pois não queria deixar seus três filhos pequenos para passar dois anos em campanha.

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