ANÁLISE-Nova equipe econômica terá de provar discurso na prática

A tríade nomeada por Dilma Rousseff para comandar a economia indica que a presidente eleita está decidida a manter as linhas gerais das políticas anteriores. Mas, como o diabo mora nos detalhes, economistas ainda aguardam provas práticas de comprometimento com o regime de metas, a autonomia do Banco Central e o controle de gastos.

ISABEL VERSIANI, REUTERS

24 de novembro de 2010 | 21h31

Os últimos anos foram marcados por um confronto silencioso entre um Ministério da Fazenda visto como relativamente leniente com as finanças públicas e um BC fiel às metas de inflação, sempre preparado a compensar eventuais exageros de gastos com aumentos de juros.

Com a nova composição da equipe econômica --com Guido Mantega mantido na Fazenda, o diretor do BC Alexandre Tombini indicado para a presidência do banco e a coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento, Miriam Belchior, alçada à ministra do Planejamento-- ainda não está claro como ficará a correlação de forças em Brasília.

Sobre Tombini, funcionário de carreira do BC, não pairam dúvidas sobre competência técnica ou responsabilidade com a inflação. Mas alguns analistas questionam se ele terá a força política necessária para garantir a continuidade da autonomia de facto da autoridade monetária.

"Tanto BC como Planejamento ainda têm de passar pela prova dos nove. O BC para provar independência, e o Planejamento para mostrar compromisso com ajuste fiscal", afirmou André Perfeito, economista da Gradual Investimentos.

A novo governo já indicou que terá como meta a redução da taxa de juros real a 2 por cento até o final de 2014. Como "mãe do Programa de Aceleração do Crescimento", não está claro se Dilma estará disposta a comprometer gastos para garantir essa queda de juros.

A nomeação da gerente do PAC para o Planejamento também sinaliza que o papel de gestor orçamentário do ministério hoje ocupado por Paulo Bernardo se reduzirá, abrindo mais espaço para um planejamento efetivo de longo prazo.

"Dúvidas estão surgindo com a retomada da inflação: o novo Banco Central terá o apoio político para começar a elevar as taxas nos primeiros meses da próxima administração?", questionou o economista-chefe do Barclays Capital, Marcelo Salomon, em relatório divulgado nesta quarta-feira.

Para o economista, apenas o tempo deixará claro se o BC ficará mais constrangido em elevar a Selic para conter a demanda, preferindo adotar medidas como aumento de compulsório ou limitação do crédito.

FRIGIR DOS OVOS

Dilma é economista e, nesta condição, a expectativa é que tenha maior ingerência sobre o dia-a-dia da gestão econômica do que Lula.

Armando Castelar, economista do Ibre/FGV, disse acreditar que a presidente tenha o desejo de melhorar o perfil das despesas, abrindo espaço para investimentos. Mas ele pondera que a sociedade brasileira é pró-gasto, e que as demandas são muitas.

"No frigir dos ovos, acho que você não vai ter melhora fiscal", afirmou.

Na primeira entrevista coletiva após ser oficialmente anunciado como indicado para o cargo, Tombini afirmou que Dilma lhe garantiu "autonomia total" do BC.

"Ela me disse que nesse regime não há meia autonomia, é autonomia operacional total", afirmou Tombini, cuja indicação ainda terá de ser aprovada pelo Senado.

Mantega, também presente à entrevista, ao lado de Miriam, prometeu "forte redução de gastos de custeio" e afirmou que o crescimento só será sustentado se não gerar dívida pública nem inflação.

Alberto Ramos, economista sênior do Goldman Sachs em Nova York, afirmou que "em nível retórico, é isso o que os mercados querem ouvir".

"São ótimas declarações, mas medidas recentes que temos visto não vão necessariamente nessa direção."

(Com reportagem adicional de Silvio Cascione e Luciana Lopez; Edição de Alexandre Caverni)

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