ANÁLISE-Obama está entre os vitoriosos de Iowa

Depois de uma noite de suspense dramática e confusa no caucus (eleição primária) do Partido Republicano em Iowa, o grande vencedor pode bem ter sido um democrata: Barack Obama.

TIM REID E SAM YOUNGMAN, REUTERS

04 de janeiro de 2012 | 15h10

A campanha de reeleição do presidente norte-americano tinha motivos para sorrir nesta quarta-feira, enquanto Mitt Romney e Rick Santorum obtiveram um empate técnico na primária que iniciou a campanha pela indicação presidencial republicana.

Romney, ex-governador de Massachusetts, saiu de Iowa com seu status de favorito intacto e com sua bem-financiada campanha pronta para uma luta de meses.

Mas sua estreita margem de diferença sobre Santorum - um conservador social que administra uma campanha de baixo orçamento e com pouca publicidade - reforça as dúvidas persistentes sobre a capacidade de Romney de conquistar a base conservadora de seu partido.

E também aumenta as chances de que a ainda provável marcha de Romney rumo à indicação republicana não será tão rápida quanto ele esperava, disseram analistas e estrategistas na quarta-feira.

Para a campanha de Obama, que opera há bastante tempo com a suposição de que enfrentará Romney na eleição de 6 de novembro, isso é uma boa notícia.

"Os pesos-pesados democratas estão comemorando discretamente", disse à Reuters David Gergen, ex-assessor de dois presidentes republicanos e dois democratas.

"Eles enxergam o provável candidato (republicano), Mitt Romney, incapaz de cumprir o prometido, e um eleitorado republicano não apenas indeciso, mas sem muito entusiasmo".

Enquanto Romney continuará brigando com inimigos republicanos nas próximas primárias, disse Gergen, a campanha de Obama - que de outra forma poderia estar com problemas em meio a preocupações sobre a economia e gastos do governo - "tem tempo de levantar dinheiro e afiar sua mensagem".

Para Romney, a boa notícia em Iowa foi a de que os dois candidatos que pareciam em melhor posição para lançar uma campanha longa contra ele - Newt Gingrich e Rick Perry - não se saíram bem no início das primárias.

Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Deputados, ficou em quarto lugar e saiu de Iowa furioso por ver sua posição no alto das pesquisas de opinião derrubada por anúncios na televisão criados por um grupo independente que apoia Romney.

A partir da primária de New Hampshire, em 10 de janeiro, e continuando pelas disputas na Carolina do Sul e na Flórida, Gingrich prometeu mostrar Romney como moderado demais para a maioria dos eleitores republicanos. Romney é o grande favorito para vencer em New Hampshire, mas Gingrich lidera as últimas pesquisas na Carolina do Sul e na Flórida.

Perry, o governador do Texas, ficou em quinto lugar em Iowa e disse que voltaria para casa para "avaliar" sua campanha. Horas depois ele anunciou que continuaria na disputa.

Uma pergunta chave agora é se Santorum - que tem pouco dinheiro e pouca estrutura nacional de campanha depois de se esforçar na primária de Iowa - pode ter apelo nacional e se apresentar como uma alternativa a Romney para os eleitores conservadores.

Santorum, que tempera seus discursos com referências religiosas e contra o aborto, também precisará provar que pode levar seu apelo para além dos elementos mais conservadores do Partido Republicano.

DUELO NA CAROLINA DO SUL

Os resultados de Iowa preparam o cenário para um fascinante duelo em 21 de janeiro na Carolina do Sul, outro Estado com um eleitorado republicano fortemente conservador.

Lá, Romney - presumivelmente depois de vencer em New Hampshire - enfrentará um fortalecido Gingrich, que é da vizinha Geórgia.

Gingrich está preparando anúncios em que chama Romney de um "moderado de Massachusetts". E nos dois debates em New Hampshire, neste final de semana, Gingrich terá a chance de descontar em Romney o que vem descrevendo como ataques injustos e mentirosos feitos por partidários de Romney.

Se Santorum conseguir reunir rapidamente uma organização na Carolina do Sul para atrair o apoio entre cristãos evangélicos influentes, ele também poderia ser um elemento. Seus esforços poderiam ser ajudados com uma eventual retirada de Perry que, como Santorum, está de olho nos eleitores cristãos.

Caso contrário, Santorum pode desaparecer da disputa, como aconteceu com o ex-governador do Arkansas Mike Huckabee, o vitorioso evangélico em Iowa em 2008 que não conseguiu manter o ritmo daquela vitória.

Outro candidato que pode se sair bem na Carolina do Sul é o representante do Texas, Ron Paul, que tem grande apoio dos eleitores mais jovens e dos independentes e que ficou em um forte terceiro lugar em Iowa.

Paul não é visto como um provável ganhador da indicação republicana porque suas posições - que incluem cortes dramáticos na defesa e uma política externa isolacionista - são opostas pela maior parte dos membros do partido.

ROMNEY ENTROU EM COMA?

Quando ficou em segundo lugar atrás de Huckabee em Iowa em 2008, Romney obteve 25 por cento dos votos no Estado. Na terça-feira, ele recebeu quase a mesma porcentagem de votos.

Apesar de liderar a corrida republicana, Romney não conseguiu subir acima dos 25 por cento nas pesquisas republicanas a nível nacional.

Muitos estrategistas republicanos acham que isso é um problema.

"Mitt Romney entrou em coma", disse Ford O'Connell, um estrategista republicano. "Obviamente, ele surge como o favorito nas apostas para ganhar a indicação. Mas (terça-feira) foi uma boa noite para ele, não uma ótima noite".

O'Connell disse que para os republicanos a "principal pergunta é, Rick Santorum conseguirá convencer a Carolina do Sul e além de que tem apelo eleitoral geral? O voto anti-Mitt vai se consolidar ao redor de um candidato?"

A equipe de Romney está planejando uma viagem para a Carolina do Sul nesta semana, depois de o candidato passar algum tempo fazendo campanha em New Hampshire.

A equipe de Romney também comprou publicidade televisiva na Flórida na terça-feira. O Estado fará sua primária em 31 de janeiro.

Na Carolina do Sul, Romney tem o apoio da governadora republicana do Estado, Nikki Haley. Chad Connelly, presidente do Partido Republicano da Carolina do Sul, disse que os problemas de Romney com os conservadores sociais não são tão importantes como há quatro anos.

Romney terá que devotar tempo e energia para se sair bem no que é chamado de "a primeira primária do sul", disse Connelly.

Connelly acrescentou que ficou "agradavelmente surpreso" em saber que Romney iria visitar o Estado antes da primária de 10 de janeiro em New Hampshire.

"Isso é muito importante para o nosso Estado", disse.

Do ponto de vista de Romney, dizem analistas, a questão será se os eleitores conservadores das primárias republicanas permanecerão divididos entre seus candidatos rivais - o que ele aceitaria bem - ou se um grande rival vai surgir.

Outros analistas dizem que Romney terá que se preparar para golpes de Gingrich - ataques que poderiam no final ajudar os esforços da campanha de Obama de definir Romney como um oportunista que mudou de posição em várias questões, inclusive na reforma do sistema de saúde.

"O que surgiu de Iowa não foi uma imagem clara", disse Tad Devine, um estrategista democrata. "Romney é um cara que obteve 25 por cento dos votos há quatro anos. Há muito incentivo para os (outros republicanos) continuarem em frente".

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