Análise: Pancadas do racismo e do machismo sempre virão

"O genocídio da juventude negra é uma realidade triste que, infelizmente, não comove ninguém", diz rapper

TÁSSIA REIS, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2016 | 06h00

Há quem discorde, mas a cultura hip-hop sempre teve sua importância política. Na minha história não foi diferente. Esse papo de que salva vidas, é bem isso, me salvou da alienação e mostrou um mundo novo. 

Me enxerguei e me inspirei em pessoas negras como eu, que faziam coisas incríveis e eu nem sabia que existia isso de verdade. Pela primeira vez, me senti parte de algo, já que a TV não me contemplava, o desenho, as revistas, a publicidade, eu não me via lá. Minha presença negra e feminina quase nunca esteve lá (mídia). E, quando esteve, em sua maioria, foi um show de horrores de hipersexualização ou invisibilidade da própria história, vide o embranquecimento dos personagens do Egito, dos personagens de Jorge Amado, além do lugar que a branquitude nos impõe: como suas empregadas domésticas, suas subalternas ou estereotipadas como barraqueiras, etc.

A representatividade me mostrou uma fresta de chance de ser qualquer outra coisa do que aquilo que já estava programado para mim, que era trabalhar muito em algo que eu não escolhi, pela minha subsistência ou de minha família, até os momentos finais de minha vida, isso se não for “confundida” na rua e assassinada “por acaso” pela polícia. O genocídio da juventude negra é uma realidade triste que, infelizmente, não comove ninguém.

É muito difícil ter autoestima, quando tudo indica que você não terá nenhuma chance. Eu me sentia (e ainda me sinto) silenciada de uma forma tão sistêmica e cruel que me parecia ser irreversível. Me sentir fortalecida me impulsionou a querer mudar algo, foi aí que bati de frente com o espelho. 

Me encarar e começar a me conhecer, me fez questionadora, e me questionei sobre os limites impostos ao meu corpo negro feminino invisível e, por intermédios das minúcias, identifiquei por quais vias conseguiria subverter alguns desses limites. Entretanto, não sou ingênua, desconstruir não é algo tão fácil. O empoderamento não é uma camiseta que você veste e Bum!, tá empoderada.

É um exercício diário, que terá dias de vitória e dias de derrota. E é importante que saibamos que podemos chorar, sim. Já carregamos o estigma da “guerreira” que nunca chora e tudo suporta, e isso também é muito cruel, nos adoece, nos faz chorar de outras maneiras... Os obstáculos para as mulheres negras, em qualquer aspecto, são maiores e na música independente não é diferente, no rap não é diferente. 

Essas coisas podem ser sutis ou podem ser escancaradas, mas elas sempre estão lá. Parece complexo pros caras entenderem que eles têm diversos privilégios em relação a nós e quando questionamos somos as “chatonas do rolê”. (Que seja, então, rs) 

A parceria – Machismo featuring Racismo – nos exclui de maneira massiva, tornando praticamente inviável nossa ascensão e visibilidade. 

É certo que, hoje, não dependemos mais das gravadoras como único meio de se ter uma carreira, já que a internet é nossa grande aliada e temos entendido e usufruído dessa plataforma. Porém, a consagração ainda é exclusividade de poucos. Não ha meritocracia quando seu ponto de largada é muito à frente do restante.

Eu me sinto como se estivesse sempre numa dupla jornada, na qual, além de todas as mazelas de ser uma artista independente, que põe a mão na massa, como qualquer outra(o) artista, preciso me manter firme e me reinventar para receber as pancadas do racismo e do machismo, porque elas sempre virão. 

*TÁSSIA REIS É RAPPER

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