ANÁLISE-Popularidade cacifa endurecimento de Dilma com Congresso

A presidente Dilma Rousseff demonstrou nas últimas semanas que pretende continuar esticando a corda com o Congresso, ignorando a pressão dos aliados. Dilma ainda tem força para manter essa posição, sustentada principalmente pela sua alta popularidade, avaliam analistas e parlamentares.

JEFERSON RIBEIRO, REUTERS

23 Março 2012 | 20h25

Se a postura de "durona" é bem avaliada nas pesquisas, entre os aliados na Câmara e no Senado tem baixíssima popularidade.

E mesmo que a presidente consiga transferir para o Congresso a responsabilidade pelo longo período sem votações ou pela demora na aprovação da Lei Geral da Copa e do Código Florestal, ela é quem tem mais a perder nessa disputa com o Poder Legislativo, na avaliação do cientista político Leonardo Barreto.

"Do lado do governo quem perde é a Dilma, no Congresso essa responsabilização é diluída", afirmou Barreto, professor da Universidade de Brasília.

Um experiente parlamentar avalia que Dilma não atua dessa forma para demonstrar quão forte é. O problema é mais grave. "Ela não entende o valor do Parlamento", disse o aliado à Reuters sob condição de anonimato.

"Pode ser que ela esteja atuando levando em conta apenas sua alta popularidade", disse esse parlamentar. Contudo, ele acredita que esse apoio popular que Dilma tem é muito diferente do que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reunia.

"A (popularidade) dela é baseada na continuidade do governo. O Lula tinha carisma pessoal", afirmou o aliado.

A pesquisa de popularidade mais recente, divulgada pelo Instituto Datafolha em janeiro, mostrou que a presidente superava a avaliação positiva de Lula no início do mandato e sua gestão era considerada ótima ou boa por 59 por cento dos brasileiros.

Barreto, no entanto, considera muito difícil que a situação leve a presidente a passar por uma crise de governabilidade apenas por ter uma relação ruim com o Congresso.

"Ela tem duas redes de segurança. A popularidade e a proximidade com o ex-presidente Lula", disse o cientista político. O pior, segundo ele, só viria se Dilma perdesse apoio popular e os políticos percebessem que Lula já não a influencia.

"TUDO OU NADA"

Porém, ele crê que o caminho tomado pelo governo no relacionamento com o Congresso é perigoso.

"Ainda não há o jogo do tudo ou nada, mas há elementos para isso. Consigo enxergar possibilidade para isso. Jogo do tudo ou nada não é (o risco) de ela cair. O problema é que ela pode perder a capacidade de reeleição", disse Barreto.

O cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), avalia ainda que a presidente tem outros trunfos a seu favor, como as emendas parlamentares.

"Os deputados estão doidos para pegar esse dinheiro para plantar nos redutos eleitorais em ano de eleição. Então ela pode pressioná-los desse jeito. Seria a válvula de escape mais fácil", afirmou.

Porém, aparentemente, a presidente tem a intenção de fazer mudanças na forma tradicional de se relacionar com o Congresso, baseada principalmente na liberação de recursos e distribuição de cargos para os parlamentares e seus afiliados em troca de vitória nas votações em plenário.

Barreto vê como legítimo que a presidente tente mudar a forma de se relacionar com o Congresso, mas acredita que Dilma não tem capacidade política para fazer essa mudança e nem montou uma equipe capaz para isso.

"Além dos riscos serem maiores para ela, Dilma não tem equipe para isso. Em alguma momento ela vai ter que ceder", afirmou Barreto.

E se Dilma quer mesmo imprimir um novo marco para as relações com os aliados terá que admitir um Legislativo mais independente.

"Se ela quiser mudar a composição por fisiologia como foi antes e que a partir de agora seja uma relação programática, não pode exigir o mesmo volume de fidelidade dos aliados. E tem que abrir as políticas públicas para o Congresso participar", afirmou o professor da UnB

Para Barreto, o que Dilma sinaliza hoje para o Congresso é o "adesismo".

PREJUÍZO IMEDIATO

O difícil relacionamento entre o Executivo e os aliados e a tentativa da presidente de impor sua vontade ao Congresso já provocam paralisia nas votações e pequenas derrotas têm sido impostas ao governo, como a convocação de ministros ao Parlamento sem combinação prévia.

Na Câmara, o governo pode ficar um mês sem votações, já que desde a mudança nas lideranças do governo no Congresso os aliados têm freado a tramitação da Lei Geral da Copa e exigindo a discussão da reforma do Código Florestal.

A troca dos líderes ocorreu dias depois que o Senado rejeitou a indicação de Bernardo Figueiredo para a direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), um técnico da máxima confiança da presidente.

Dilma reagiu à derrota e substituiu Romero Jucá (PMDB-RR) por Eduardo Braga (PMDB-AM) na liderança do Senado e tirou Cândido Vaccarezza (PT-SP) da liderança do governo na Câmara para colocar o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). As trocas intempestivas provocaram a ira dos aliados.

O governo acredita que as nuvens mais pesadas estão saindo do cenário e aposta que nos próximos dias haverá um distensionamento no Congresso, o que pode inclusive criar um ambiente favorável para aprovar a Lei Geral da Copa na próxima semana.

A avaliação otimista, não compartilhada por líderes da base no Congresso, decorre, na opinião de uma fonte do Executivo, de uma análise diferente do quadro político. Para essa fonte, não é a atuação da presidente que está irritando os aliados.

"O que há é uma degradação das lideranças políticas, dos aglutinadores tradicionais do Congresso. Quando se esmiuçam os problemas, eles não chegam na presidente", disse a fonte à Reuters, admitindo que o governo tem sido alvo de ataques especulativos de alguns aliados.

Para essa fonte, Dilma não tem uma postura fora do comum, apesar de ter um perfil mais exigente.

"No método, ela (Dilma) é intransigente. Mas no conteúdo ela é realista", avaliou.

(Edição de Eduardo Simões e Maria Pia Palermo)

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