ANÁLISE-Propaganda na TV dá largada real e pode mudar eleição

A campanha para as eleições municipais deste ano começa "para valer" com o início do horário eleitoral na TV no próximo dia 21, e as estratégias adotadas pelos candidatos nessa arena têm potencial decisivo para transformar favoritos em derrotados e azarões em prefeitos.

EDUARDO SIMÕES E JEFERSON RIBEIRO, Reuters

17 de agosto de 2012 | 16h26

Especialistas ouvidos pela Reuters apontam que antes do início da propaganda eleitoral na TV a maioria do eleitorado não conhece todos os candidatos, e as pesquisas de opinião nessa altura servem mais para aferir uma "simpatia" do que uma convicção de voto.

"A campanha eleitoral na TV é uma arena importantíssima para os candidatos disputarem a preferência dos eleitores", disse à Reuters o coordenador do curso de marketing eleitoral da ESPM, Victor Trujillo. "É a partir do horário na televisão que os candidatos novos passarão a ser conhecidos."

Para Trujillo, inclusive, até mesmo aqueles que não têm interesse nas eleições são atingidos pela propaganda eleitoral, graças às inserções de 30 segundos espalhadas pela programação das emissoras.

"A partir das inserções é que a gente explica a força do horário eleitoral na televisão... Dessas, o eleitor não consegue escapar."

Assim, tomando como exemplo a disputa pela prefeitura de São Paulo, o candidato do PT, Fernando Haddad, pouco conhecido da população, terá 7 minutos e 39 segundos na TV, e por isso tem boas chances de sair do atual patamar, de menos de 10 por cento de intenção de voto, e ganhar fôlego até o primeiro turno da eleição no dia 7 de outubro.

Por outro lado, o candidato do PRB, Celso Russomanno, bastante conhecido da população e, até agora, empatado na liderança das pesquisas com o favorito José Serra (PSDB), pode sofrer por ter somente 2 minutos e 11 segundos no horário eleitoral.

"A possibilidade de o Haddad crescer é grande. Por outro lado, o Celso Russomanno é favorecido por uma coisa que ele não terá no futuro. Ele tinha um programa de televisão. Ele aparecia cotidianamente na televisão", disse o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

"O Russomanno vai ter menos tempo de televisão que o Haddad e vai perder o tempo que ele já tinha na televisão, embora ele seja mais conhecido", acrescentou.

O candidato petista deve concentrar suas baterias, portanto, na propaganda eleitoral, como confirmou à Reuters um integrante da campanha de Haddad que falou sob a condição de anonimato.

A ideia, pelo menos no início, será de tornar o ex-ministro da Educação conhecido, num movimento parecido com o realizado pelos estrategistas petistas na campanha de 2010, que levou Dilma Rousseff à Presidência.

A diferença, porém, é que a estratégia de Dilma foi traçada e executada muito antes da campanha na TV. Ela esteve ao lado do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho político dela em 2010, durante meses antes da propaganda eleitoral inaugurando obras em várias partes do país e se tornando mais conhecida.

Haddad, além de ser desconhecido, pode ter ficado marcado pelos problemas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando era ministro da Educação.

A presidente, aliás, não definiu ainda se participará da campanha em São Paulo, onde o principal partido da coalizão que a apoia, o PMDB, tem candidato próprio, o deputado federal Gabriel Chalita, que terá 4 minutos e 22 segundos para se apresentar ao eleitorado.

Por isso, na estratégia de Haddad a presença de Lula ao seu lado na TV é essencial para o seu desempenho. Apesar de sozinho o apoio de Lula não ser considerado suficiente para levar Haddad à vitória, até mesmo apoiadores de candidaturas rivais reconhecem a força do ex-presidente.

"Essa é uma eleição muito difícil. O cenário não está claro. Quando a TV entrar no processo muita coisa pode mudar", disse à Reuters o deputado Guilherme Campos (PSD-SP), cujo partido apoia Serra. "Na TV o Lula pode impulsionar muito a candidatura do Haddad."

Para ele, o candidato tucano usará os 7 minutos e 39 segundos que terá na TV, por coincidência o mesmo tempo de Haddad, para falar de sua experiência. "É o candidato com melhor currículo", avalia.

A experiência de várias campanhas pode ajudar Serra a usar a TV para vencer a alta rejeição registradas nas pesquisas.

Segundo sondagem Ibope divulgada na quinta-feira, Serra está empatado com Russomanno na preferência do eleitorado paulistano com 26 por cento. Haddad vem bem atrás, com 9 por cento, e Chalita tem 5 por cento, mesmo patamar de Soninha Francine (PPS)e Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT).

UM MINUTO E 59 SEGUNDOS

Outra disputa municipal apontada por analistas e políticos como de grande caráter nacional, Belo Horizonte é uma mostra de como os articuladores políticos lutam por cada segundo a mais para seus candidatos na TV.

O diretório do PSD na capital mineira optou por apoiar a candidatura à reeleição de Márcio Lacerda (PSB) contra Patrus Ananias (PT), mas a direção nacional da legenda, por meio de seu presidente, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, interveio e a questão foi parar na Justiça.

A questão ainda está sub judice, mas por ora, o um minuto e 59 segundos a que o PSD tem direito está com Lacerda, que assim, terá 14 minutos e 19 segundos de tempo na TV, contra 8 minutos e 22 segundos de Patrus.

"Houve um pedido pessoal da presidente para que apoiasse a nova aliança, e se decidiu por maioria pelo candidato apoiado pela Dilma", disse Campos, do PSD, dando uma ideia do peso que a presidente dá à eleição em sua cidade natal.

A disputa pelo comando da capital mineira será também um duelo de padrinhos. Dilma com Patrus, e o senador Aécio Neves (PSDB-MG) com Lacerda.

Por ora, Lacerda lidera com 46 por cento contra 23 por cento, mas Patrus aposta no apoio da presidente. Uma fonte ligada à campanha petista em Belo Horizonte faz a avaliação de que Lacerda também pretende se colocar como aliado de Dilma, e a estratégia para vencê-lo será a de colocar o socialista no lado oposto ao da presidente.

A movimentação, no entanto, pode ser inócua, na avaliação da cientista política da Universidade Federal de Minas Gerais Helcimara de Souza Telles.

"Os presidentes conseguem transferir poucos votos para seus candidatos a prefeito... Eu acho que o apoio do Aécio aos candidatos é mais importante que o apoio da Dilma", avaliou, referindo-se à enorme popularidade que o senador tem entre o eleitorado mineiro.

Mais conteúdo sobre:
POLITICAMUNICIPAISANALISEHEG*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.