Análise: Salvaguardem-nos das salvaguardas

Análise: Salvaguardem-nos das salvaguardas

O maior desejo de quem escreve sobre vinhos, como eu, é que mais gente compartilhe nosso prazer, bebendo melhor e por preço mais adequado e acessível. O Paladar já fez diversas matérias procurando indicar bons produtos que não detonem os orçamentos: uma capa sobre achados de supermercados e outra sobre vinhos de Bordeaux, normalmente intangíveis para quase todos, abaixo de R$ 100. Ambas as matérias tiveram repercussão. A ideia de indicar semanalmente um vinho, na seção Vinho de Quinta-Feira, de Glupt!, é sugerir sempre uma garrafa de bom preço e ótima qualidade, que possa ser comprada no dia para consumo no final de semana. Então aparece essa ameaça de salvaguardas para o vinho brasileiro. Quem gosta de preços mais altos? E quem precisa de mais impostos? 

Luiz Horta - O Estado de S.Paulo,

21 Março 2012 | 19h02

Em lugar de ajudar a indústria nacional, a proposta já causou grande prejuízo antes até de entrar em vigor - se é que vai ser aprovada. Houve protestos nas redes sociais, com abaixo-assinado e manifestações radicais. Até mesmo o boicote aos produtos brasileiros foi preconizado. Seria uma imensa pena ver brasileiros recusando beber o cada vez melhor produto nacional. 

Ainda não sabemos o teor das medidas. Fontes consultadas pela coluna dão como certa sua aprovação, mas não se sabe se por aumento da alíquota do imposto de importação ou pelo estabelecimento do sistema de cotas. Das duas, a pior será a de cotas, pois discrimina sem levar em conta qualidade, apenas quantidade por países. Os impostos, terríveis, pelo menos representarão um aumento final ao consumidor de 10% a 20%, sem entretanto desmanchar a importante oferta de vinho mundial à venda no Brasil; foi essa pluralidade de rótulos que formou uma geração de bem informados enófilos e, por que não acrescentar, permitiu o surgimento de enólogos experientes, que têm vinhos de todo o mundo para comparar, saindo da entropia de regiões que vivem do autoelogio por ignorância do que vem de fora, como ressaltei na coluna da semana passada sobre o Vale dos Vinhedos. Sem o conhecimento e a prova de vinhos europeus e novo-mundistas, não haveria nenhum dos bons vinhos que provei. É como o artista que desconhece a história da arte: por falta de parâmetros comparativos, vai se julgar um gênio. 

O mais lamentável é, depois de décadas de esforço para vencer barreiras e se tornar algo que pode ser levado às mesas, depois de enfrentar a dificílima conquista de mercados externos e o renitente desamor de seus compatriotas, o vinho brasileiro vinha ganhando espaço. Numa penada desastrosa, joga fora essa trajetória e volta a ser, agora não mais por baixa qualidade, mas por antipatia, um patinho feio. Ainda há grande resistência a sua entrada no alto mercado, poucos restaurantes os incluem em suas cartas. O pioneiro foi o Brasil a Gosto, onde conheci o ótimo, e cada vez melhor, Gewürztraminer Valduga. Quase simultaneamente vieram Tordesilhas, D.O.M., Dalva e Dito (onde provei pela primeira vez o Barbera da Angheben) e outros poucos. O anúncio da inclusão do ótimo Quinta do Seival Castas Portuguesas na lista dos vinhos oficiais da Olimpíada de Londres foi ofuscado pelas desastradas medidas de aumento de impostos sobre importados.

Que vai acontecer? Se os estudos do ministério resultarem em medidas protecionistas, algo bastante provável, ficará uma mácula que vai demorar a sumir no afeto do consumidor informado, que na última semana levantou-se numa onda de furor contra o produto. Com sua aprovação virá a tragédia. A fatia de mercado tirada de europeus e chilenos (Argentina, Uruguai e Israel, por acordos do Mercosul, permanecerão isentos de impostos aduaneiros) será, provavelmente, jogada no colo dos vinhos platinos. O Uruguai, mesmo com a grande qualidade geral dos vinhos, é um player demasiadamente pequeno. O edital publicado no Diário Oficial deve estar sendo festejado em surdina nas empresas argentinas. Nada impede que diante dessa nova realidade as mesmas entidades que pediram proteção contra os importados voltem à carga contra os vizinhos do Mercosul. Esse tipo de coisa tem um começo claro, mas o final é sempre tortuoso; os perdedores serão, para variar, os bebedores de vinho. A evolução da amarga beberagem engarrafada pelo governo só será avaliável em algum tempo. Eu sou cético e estou contra, mas ainda espero bom senso. O consumidor, maior prejudicado, é que julgará.

Isto quer dizer...

Salvaguardas: medidas para defender o mercado interno de importações maciças.

Investigação: avaliação do mercado feita antes de serem adotadas salvaguardas.

OMC: fórum para arbitrar o comércio mundial de bens e serviços.

Protecionismo: prática contrária ao livre comércio mundial condenada pela OMC. 

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