Andou, voou, nadou, mexeu? É comida

A diversidade culinária chinesa atordoa. As maiores esquisitices podem aterrissar na mesa: olho de peixe, ovo de mil anos, escorpião, bicho-da-seda, gafanhotos, informa nossa correspondente. Relaxe. Os chineses sempre comeram isso e passam de 1 bilhão

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2008 | 02h30

A primeira lição gastronômica de um estrangeiro na China é a de que não há tabus na culinária local e tudo pode se transformar em um elaborado prato. Os próprios chineses se gabam disso e repetem o ditado segundo o qual eles comem tudo que tem quatro pernas e não é mesa, tudo que voa e não é avião e tudo que se move na água e não é navio. O exotismo é reforçado pelo fato de que a culinária e a medicina tradicional chinesa têm a mesma origem e muitas coisas acabaram se transformando em iguarias em razão da convicção de que fazem bem à saúde. Nessa categoria estão os ninhos de pássaros e as barbatanas de tubarão, vendidos tanto em restaurantes quanto nas farmácias de medicina chinesa. Os ninhos são consumidos por seu suposto teor protéico, enquanto as barbatanas teriam uma série de propriedades, entre as quais o aumento da potência sexual masculina - algo nunca provado cientificamente. A culinária é um elemento fundamental da cultura chinesa e até pouco tempo o cumprimento mais usado quando duas pessoas se encontravam era chi le ma?, que significa "você já comeu?". Comer é uma atividade coletiva, exercida quase sempre ao lado de mesas redondas e pratos compartilhados. A idéia de ir a um restaurante e pedir um prato individual não faz parte dos hábitos chineses. As mesas redondas costumam ter um tampo de vidro móvel no centro, no qual são colocados os pedidos, que assim podem ser desfrutados por todos. Além de não ter tabu em relação ao que pode virar comida, a cozinha chinesa também não tem restrições quanto ao que pode ser servido em um mesmo almoço ou jantar. Especialmente se houver muita gente ao redor da mesa, é comum que a mesma refeição tenha peixe, carne, porco, frango, legumes, arroz e massa. Os restaurantes locais costumam ser exageradamente iluminados, ruidosos e enfumaçados. Os chineses fumam muito e não apenas depois, mas durante as refeições. Não é raro ver uma pessoa - em geral, homem - comendo com palitos na mão direita e segurando um cigarro com a esquerda. Outra característica comum é a existência de salas privadas, nas quais a família ou o grupo pode ficar isolado dos demais clientes, algo bastante estranho para os ocidentais, mas absolutamente freqüente na China. A diversidade culinária é estonteante e, além das diferenças regionais, existe a gastronomia dos 54 grupos étnicos minoritários que habitam a China, como mongóis, tibetanos e muçulmanos de Xinjiang. Nos jantares de que participei em restaurantes chineses, as maiores esquisitices que vi chegarem à mesa foram estômago de pato, cabeça de peixe (com os olhos, que são, evidentemente, comidos), lagartas fritas e vísceras em geral. Nas populares barracas de rua, vi escorpiões, gafanhotos, bichos-da-seda e cavalos-marinhos, mas meu instinto de repórter não foi grande o bastante para levar-me a experimentá-los. Resisti muito tempo até experimentar o "ovo de mil anos", tanto por seu aspecto escuro quanto pela idéia evocada por seu nome - afinal, o que existe de apetitoso em um ovo velho? Mas quando provei, achei menos repulsivo do que esperava. O ovo não tem mil anos, mas cem dias, durante os quais ele permanece enterrado na terra, envolto em uma mistura de chá preto, cinzas e cal. No fim do processo, a clara do ovo parece uma gelatina escura e a gema ganha uma consistência cremosa, com uma cor ligeiramente esverdeada. Também tive problemas com a cozinha apimentada de Sichuan, que deixa no chinelo qualquer prato "quente" da Bahia, e acho que nunca vou me acostumar ao café-da-manhã chinês, no qual é servido comida que eu só poderei pensar em ver a partir do horário do almoço. Carne, pickles, sopa de arroz, ovos de mil anos, macarrão ou uma massa frita parecida com churros (mas nem doce nem salgada) estão entre as opções da primeira refeição do dia dos chineses. Nada parecido ao pão com manteiga e café com leite pelo qual eu morro a cada despertar _ o momento do dia em que estou menos tolerante em relação à diversidade cultural do mundo. O maior choque cultural-gastronômico que experimentei foi dar de cara com um cachorro inteiro, sendo assado em um espeto (já morto), quando eu andava em um mercado de comidas na província de Yunnan, no sudoeste chinês. Mas na maioria das vezes, minha experiência com a culinária chinesa foi extremamente prazerosa e posso garantir que há um universo de tentações além dos escorpiões fritos e dos ovos de mil anos.

Mais conteúdo sobre:
comida chinesa

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.