Angola reage com cautela a pedido de ajuda de Portugal

O pedido de socorro lançado por Portugal à sua ex-colônia Angola mostra não só que a situação anda crítica para o governo português, mas também que a nação africana, rica em petróleo, tem uma chance de ampliar seus investimentos no exterior e obter prestígio a preços de ocasião.

SHRIKESH LAXMIDAS, REUTERS

24 de novembro de 2011 | 10h17

Invertendo o fluxo colonial habitual, o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, esteve na semana passada em Angola para cortejar as empresas locais a investirem no seu país, imerso numa recessão e com uma enorme dívida.

Mas a resposta do presidente português, José Eduardo dos Santos, foi notavelmente comedida, salientando a necessidade de que qualquer negócio beneficie ambos os lados.

"Esta não é uma ajuda humanitária. É uma oportunidade para que Angola se beneficie desse contexto para aumentar suas posições em Portugal e conquistar prestígio na União Europeia", disse Filipe Garcia, diretor da consultoria Informação de Mercados Financeiros.

Angola se tornou independente de Portugal em 1975, mas em seguida mergulhou em uma devastadora guerra civil que durou até 2002. Seus enormes rendimentos petrolíferos - só inferiores aos da Nigéria dentro do continente africano - fizeram com que o país tivesse um rápido crescimento econômico na última década, e analistas preveem que o PIB crescerá mais de 10 por cento no ano que vem.

Isso também permitiu que as empresas angolanas, a maioria ligada ao Estado, investissem pesadamente em Portugal, adquirindo participações importantes nos bancos Millenium BCP e BPI, na petrolífera Galp e na operadora de TV a cabo Zon.

A estatal petrolífera Sonangol, que na prática funciona como um fundo soberano do país africano, é tão influente que as ações do Millenium, maior banco privado português, tiveram alta de 37 por cento na segunda-feira devido a rumores de que a Sonangol estaria interessada em aumentar sua participação.

Não está claro, no entanto, como Angola poderia ajudar a ex-metrópole no momento. Analistas dizem que o caminho mais provável seria participar num programa de privatizações que incluiria a liquidação da participação estatal na empresa elétrica EDP, na distribuidora energética REN, na Galp e na aérea TAP.

"A Galp já está a ser discutida", disse Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI Research, em Lisboa, referindo-se às negociações para que a Sonangol transforme sua participação indireta em direta - algo que a estatal angolana já disse querer.

"Mas a EDP e a REN podem interessar também, pois são setores que Angola precisa desenvolver internamente, então poderia haver benefícios em termos de 'know-how' e parcerias", acrescentou.

Por outro lado, aumentar a participação nos bancos portugueses não faz tanto sentido, já que os lucros dessas instituições devem despencar por causa de um processo de recapitalização decorrente do pacote internacional de ajuda a Portugal, num valor de 78 bilhões de euros.

Embora separados há quase 40 anos, Angola e Portugal mantiveram uma relação excepcionalmente íntima.

Cerca de 7.000 empresas portuguesas operam em Angola, e 100 mil portugueses trabalham em setores importantes, como petróleo, bancos e construção civil.

O comércio também é robusto. No ano passado, as exportações portuguesas para Angola totalizaram 1,9 bilhão de euros, sendo o quinto principal destino dos produtos lusos.

"A relação é sob muitos aspectos ímpar. É bastante excepcional que um país europeu conte com um país africano entre os seus cinco maiores mercados externos", disse Victor Lopes, economista do banco Standard Chartered para a África Subsaariana.

Mas isso pode não durar para sempre.

Alguns analistas dizem que os planos de Angola para diversificar sua economia em longo prazo, estimulando a agricultura e a indústria e reduzindo a dependência do petróleo, irão levar a uma queda nas importações, o que afetaria principalmente os exportadores portugueses.

(Reportagem adicional de Ed Cropley em Johannesburgo)

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