Angra cria novo fundo e quer captar R$ 900 milhões

Gestora de recursos pretende investir os recursos em áreas ligadas ao consumo, como varejo e construção

Irany Tereza e Débora Thomé, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2009 | 00h00

A retomada econômica e a reativação do mercado de capitais tiraram da gaveta da gestora de recursos Angra Partners - que participou de negócios recentes do porte de Oi-BrT; Santelisa Vale e Dreyfus; e reestruturação do Metrô do Rio - o projeto de um fundo de private equity que pretende captar US$ 500 milhões (quase R$ 900 milhões, ao câmbio atual). Idealizado no ano passado, o projeto foi suspenso por causa da crise econômica. Com início de captação previsto para o primeiro trimestre de 2010, o fundo vai apostar em setores ligados ao consumo, em plena ascensão na economia brasileira.

Agora, em vez de buscar os tradicionais e escassos investidores nacionais - os fundos de pensão -, a Angra procura investidores estrangeiros, apostando no circuito fora dos EUA. "Os fundos americanos ficaram muito abalados diante da crise, estamos tentando com fundos europeus, na Ásia, no Oriente Médio", diz Alberto Guth, um dos sócios da Angra.

Segundo ele, o foco do investimento no mercado de consumo mira a incorporação da classe C. Por isso, a atenção estará voltada a oportunidades em empresas de saúde, educação, construção e mesmo varejo. A proposta completar o processo de captação em um ano.

Criada em 2003, a Angra atua nas áreas de assessoria financeira e gestão de fundos. Atualmente, está presente no frigorífico JBS, com uma participação de 14%. Em um outro negócio, em parceria com a Andrade Gutierrez (AG Angra), faz captações para investimentos em infraestrutura. Em um primeiro fundo, R$ 700 milhões foram captados em 2006, hoje investidos em três empresas: uma de sísmica e avaliação de potencial terrestre (onshore); outra de saneamento, que trata de resíduos altamente perigosos; e uma terceira, em negociação, de logística portuária, no Sul do País. Ainda restam cerca de R$ 140 milhões neste fundo da AG Angra para investir, até porque uma parte tem de ficar disponível para o caso de serem necessários novos investimentos nas empresas adquiridas. O grupo estuda lançar um outro fundo para investimentos em petróleo e gás. "É uma área muito promissora", diz Guth.

Mas foi na coordenação de grandes reestruturações que a Angra alcançou projeção no mercado financeiro. A mais recente foi a compra da Santelisa Vale, a segunda maior companhia sucroalcooleira, pela francesa Louis Dreyfus Commodities, que criou a segunda maior empresa do setor, atrás apenas da Cosan. A Santelisa estava endividada desde a compra da Vale do Rosário, no auge da excitação brasileira quanto ao futuro dos negócios do etanol. Na época, seguindo todos os manuais da boa governança, a Santelisa decidiu profissionalizar a gestão, afastando a coordenação familiar com vistas a uma abertura de capital na Bolsa. Mas deu tudo errado, e a dívida da empresa acabou chegando à casa dos R$ 3 bilhões.

"Nem sempre a gestão profissional é melhor que a familiar", diz Guth, contrariando, de certa forma, a lógica do seu próprio negócio. Diante dos problemas, a Santelisa contratou a Angra para fazer a reestruturação da dívida. A negociação com os bancos foi bem-sucedida, e a Santelisa voltou a ser um ativo interessante, disputado por todas as grandes - entre elas, Cosan, ETH (do Grupo Odebrecht) e o GP, associado à São Martinho. No início do ano, a Dreyfus foi a escolhida, aportando ativos e dinheiro no negócio.

Atualmente, Guth está trabalhando diretamente na reestruturação da Brenco, também do setor sucroalcooleiro. No mês passado, foi divulgado ao mercado o memorando de entendimentos para a união da empresa com a ETH. Guth não comenta a negociação, mas considera "natural" a consolidação do mercado de açúcar e álcool.

O mais célebre caso da Angra foi o imbróglio envolvendo a participação do Opportunity na Brasil Telecom (BrT). Foram cinco anos de trabalho, que ainda perdura, com dois terços da empresa dedicados especificamente a isso. Segundo Guth, as marcas do Opportunity foram além disso: "Esse caso deixou os investidores muito machucados. Só agora este mercado de private equity está melhorando no País."

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