Animal 'fala' e software traduz

Programa desenvolvido na Feagri/Unicamp permite interpretar [br]ruídos de animais de produção

Rose Mary de Souza, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2008 | 02h23

Como reconhecer os sons emitidos por suínos, bovinos e aves de corte e poedeiras? Como decifrar a linguagem dos animais e com isso reduzir custos com medicamentos, distribuir melhor a alimentação, o tempo de confinamento e saber se estão estressados e qual o manejo mais adequado? Um software desenvolvido pela Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp, em Campinas (SP), traz as respostas a essas questões. O programa foi projetado para captar a vocalização animal, processar, traduzir, classificar e explicar o que eles estão querendo "dizer". Com o programa instalado na área de convívio dos animais, o produtor pode captar os sons emitidos e, após avaliá-los pelo software, reconhecer o "recado" do animal: fome, stress, frio, desconforto, calor, sede, prazer. A "fala" animal pode dar pistas do que ocorre com o plantel e traduzir uma lista de expressões de comportamento como dor, fome, frustração, calor ou frio. A partir da interpretação dos ruídos, é possível tomar decisões mais eficientes, eliminando dúvidas e garantindo o bem-estar animal. Para a professora e pesquisadora-coordenadora da equipe de trabalho responsável pelo desenvolvimento do software, Irenilza de Alencar Nääs, a idéia principal é buscar um mecanismo capaz de diagnosticar e dar respostas efetivas e mais rápidas para o bem-estar animal. "Antes havia apenas suposições, agora podemos medir isso", diz ela. BEM-ESTAR ANIMAL Ela explica que a questão do bem-estar animal é cada vez mais presente em nível mundial. "Já é sabido que animais que sofrem menos produzem mais", explica a professora. E, no decorrer da criação, a adequação de espaços que proporcionem bem-estar pode fazer a diferença na hora de negociar com algum comprador internacional. "Num futuro bem próximo, uma auditoria neste criatório poderá ser feita", diz ela. Conforme a pesquisadora, existem vários estudos em andamento, mas há uma escassez de fontes e poucas situações mais aprofundadas. As pesquisas mais recentes sobre as expressões manifestadas no comportamento dos animais são de colegas das universidades da Bélgica e do Japão. Um piado mais agudo do pintinho, por exemplo, pode indicar que ele chama pela mãe. Os sons breves e curtos emitidos por uma porca durante a amamentação faz com os leitões "entendam" e puxem mais rápido o leite da teta. O grunhido da vaca pode indicar o período do estro (cio), quando é propícia a inseminação, ou ser apenas uma manifestação de frustRação. Com o software não há como errar: em todos os ensaios as respostas foram prontas e certas. No caso dos suínos, a pesquisadora diz que foram inseridos 40 tipos de expressões e dentre elas foram definidos 4 estágios, sendo 10 de graus de intensidade diferentes. Há graus de ruídos dos leitões "pedindo" para alcançar a mama da mães. Da vaca leiteira, apartada de sua cria, há 40 tipos de expressões no repertório e 10 níveis de stress. Para o modelo de stress foram classificadas etapas das mais extremas até estágios mais amenos, que podem interferir inclusive na quantidade ou provocar a ausência de leite. Há variações distintas de vocalizações de vaca em pastos amplos e aquelas conduzidas em áreas reduzidas só confinadas. "Há, porém, muita coisa para estudar", diz a pesquisadora. INFORMAÇÕES: Feagri/Unicamp, tel. (0--19) 3521-1039

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